Manuel Cajuda, mediático treinador natural de Olhão, foi um dos participantes do 13º Congresso de Treinadores, que teve lugar no Auditório Municipal de Albufeira, onde o algarvio esteve à conversa com Anselmo Cardoso, gestor de carreira dual do Sindicato de Jogadores. E foi, diga-se, uma bela conversa, sempre com muito humor à mistura, alguma história, muitas estórias e conselhos para os (muitos) técnicos que, presencialmente ou online, vibraram com as palavras do “mister”.
“É uma honra participar neste encontro e estar perante tantos treinadores. Antes de mais, gostaria de dar os parabéns à organização e a todos os profissionais que diariamente se dedicam ao treino desportivo. Também quero agradecer a presença de todos os participantes. Aliás, merecem uma salva de palmas pela disponibilidade e paciência de estarem aqui a ouvir-nos. Quero também deixar um aviso: provavelmente não serei o orador mais interessante deste congresso. Não trago novas metodologias, não apresento teorias inovadoras nem estudos científicos sobre o treino. Trago apenas a minha experiência de vida e de futebol”, destacou, na abertura, Manuel Cajuda, que contou alguns episódios da sua vida – “Recordo-me de um episódio marcante da minha juventude. Durante muito tempo pensei que tinha o pai mais exigente do mundo. Quando tinha 15 anos, queria jogar futebol, mas o meu pai obrigou-me primeiro a concluir os estudos. Na altura não compreendi essa decisão e fiquei revoltado. Via os meus colegas a jogar enquanto eu continuava a estudar. Só muitos anos mais tarde percebi o valor daquela atitude. O meu pai nunca me proibiu de jogar futebol; apenas me ensinou a definir prioridades e a alcançar objetivos. Quando concluí os estudos, autorizou-me a seguir o meu sonho”, disse -, acrescentando que nunca lhe “passou pela cabeça” ser treinador: “curiosamente, nunca pensei ser treinador. Nem durante os últimos anos da minha carreira como jogador essa hipótese me passava pela cabeça. Mas a vida tem caminhos inesperados e, aos 31 anos, surgiu a oportunidade de treinar uma equipa”, contou, explicando que, a partir desse momento, a sua realidade “mudou completamente”.
“Como jogador, as minhas preocupações eram relativamente simples. Como treinador, comecei a lidar com pessoas diferentes, personalidades distintas, culturas variadas, hábitos diversos e uma enorme complexidade humana. Percebi rapidamente que os treinadores vivem sob avaliação permanente. Quando ganham são elogiados; quando perdem são criticados. Hoje essa pressão é ainda maior, porque todos analisam o trabalho dos treinadores através das redes sociais e dos meios de comunicação”, acrescentou.
Recordamos algumas das frases marcantes de Manuel Cajuda nesta sessão:
“Costumo dizer que a experiência não é o somatório dos sucessos. A experiência é a soma dos erros que fomos cometendo e das aprendizagens que retiramos deles”.
“Ao longo da minha carreira aprendi também que a profissão de treinador ganhou reconhecimento. Houve uma época em que muitos pais não queriam que os filhos fossem jogadores de futebol. Hoje a realidade é diferente. O futebol tornou-se uma profissão respeitada e o treinador passou igualmente a ser visto com maior valorização”.
“O que mais me marcou na carreira foi perceber que trabalhamos com seres humanos e não com máquinas. Muitas vezes discutimos metodologias, sistemas e modelos de treino, mas nunca podemos esquecer que os atletas são pessoas. Têm emoções, problemas, receios, sonhos e diferentes formas de reagir”.
“Sempre me considerei um homem da prática. Respeito profundamente a teoria e a investigação, mas a minha formação foi construída sobretudo no terreno. Muitas vezes procurei nos livros explicações para situações que observava diariamente nos treinos e nos jogos. Aprendi que a teoria e a prática devem caminhar juntas. A prática levanta perguntas; a teoria ajuda a encontrar respostas”.
“Outra lição importante foi compreender que não existem receitas universais. O mesmo método pode produzir resultados diferentes em contextos distintos. Ao longo da minha carreira trabalhei no Algarve, no Norte do país, na Madeira e noutras regiões. Cada realidade exigia adaptações. A partir dessa experiência compreendi que o conhecimento precisa sempre de ser adaptado ao contexto”.
“No fundo, o maior ensinamento que retirei do futebol foi este: devemos manter uma atitude de aprendizagem permanente. Todos os dias podemos aprender algo novo, desde que estejamos disponíveis para observar, refletir e melhorar. Essa foi a filosofia que procurei seguir ao longo de toda a minha carreira”.
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