No primeiro painel do último dia do 2026 ASPC European Fórum, organizado pelo Rio Maior Sports Centre e pela Fundação do Desporto, com o apoio da Secretaria de Estado do Desporto, do Município de Rio Maior, do Instituto Português do Desporto e Juventude, do Comité Olímpico de Portugal (COP), do Comité Paralímpico de Portugal (CPP) e do Turismo do Alentejo e Ribatejo, o tema da ‘Liderança, Recursos Humanos e Performance Sustentável’ foi moderado por Susana Rodrigues, do Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ), contando com o Selecionador Nacional de Futsal, Jorge Braz, do Presidente da Federação de Andebol de Portugal, Miguel Laranjeiro, e Rui Lança, Diretor Desportivo cuja carreira passou, entre outros, pelo S.L. Benfica e o Al-Ittihad.

Rui Lança iniciou a sessão abordando “o impacto da cultura organizacional na liderança”, resumindo logo à partida que “no desporto, as pessoas são as coisas mais importantes”. Quando se trabalha a potenciar talento, é normal “querermos os melhores recursos, pretendermos dar as melhores condições”, mas, seguindo Owen Eastwood, “a cultura organizacional é o maior diferenciador competitivo”.
A cultura organizacional, podendo definir-se como “um conjunto de práticas que criam uma identidade comportamental das organizações” mesmo que “comportamentos coletivos diferentes possam coexistir na mesma organização”, e permite perceber que “sempre que passamos algo para o exterior, não se trata de passar algo individualmente, mas enquanto todo (mesmo que haja alguém menos agradável, apesar de talentoso)”. Pode ser algo que “atrai para vir trabalhar conosco, mas pode originar fator para alguém sair” também.
Exemplos como os do Bayern Munique, ou do Rugby da Nova Zelândia – neste caso, a criação da mensagem dos ‘All Blacks’ depois de um período de derrotas, que permitiu gerar uma cultura organizacional criada ao longo de 10 anos – foram indicados, passando Rui Lança a abordar alguns tópicos que podem fazer a diferença neste âmbito, como a liderança e o ambiente organizacional.
Quanto à liderança, alguns dados alertam para que apenas 13% dos líderes dispendem o seu tempo a desenvolver pessoas, e 36% dos líderes não se sentem preparados para liderar pessoas, 55% sentem solidão na tomada de decisões, gastando tempo/energia com coisas que não são tão importantes em termos organizacionais.
Por outro lado, em termos apenas de ambiente organizacional, só 15% dos funcionários estão comprometidos, e mais do que 50% das organizações não têm o contexto apropriado e métricas para melhorar a performance, resultando em 41% de tempo de trabalho que não cria valor. Outros dados interessantes reportados indicam que 92% do utilizadores de Inteligência Artificial (IA) não atinge ganhos de performance porque têm falta de softskills e 66% empresas contratam baseados no potencial de performance e talento. Algo que nas organizações desportivas pode ser tido em conta no sentido de ajustar ações para “poder fazer a diferença”.

Miguel Laranjeiro abordou a sua intervenção colocando “as pessoas no centro”, defendendo que “é o que temos feito na Federação de Andebol de Portugal (FAP) nos últimos anos”, inserido numa “lógica de década” que temos rumo a 2028. Neste âmbito, apontou alguns princípios e a forma como “as pessoas fazem a diferença”. Desde logo, através de objetivos claros, que “podemos ver a longo mas avaliando a curto e médio prazo”, de responsabilidade individual e coletiva, de avaliação, de autonomia técnica, reponsabilidade, de “acreditar no trabalho das equipas”, de “tempo – precisamos de tempo, para escutar/ouvir os outros na modalidade” apesar de termos sempre em conta as próximas competições, de tecnologias, “em que estamos a melhorar, como a IA”, mas não podemos “esquecer que somos humanos”, porque “nas organizações as pessoas são o mais importante“, mesmo quando há falta de equipamentos, por exemplo.
Neste sentido, a estratégia passou por uma “perspetiva de aproveitar o que estava bem do passado”, com todos envolvidos “num modelo nacional de desenvolvimento da modalidade“. “Tudo começa nos clubes“, a partir da certificação, com a introduzição de exigência. Depois, nas associações regionais, com contratos programa, assumindo as diferenças no país – por ex. “no interior é preciso dar oportunidade de experimentação da modalidade”. As seleções regionais desenvolvem-se visivelmente nos meetings nacionais, com treinadores de clubes convidados, e distribuindo centros de treino no norte, centro e sul, masculinos e femininos, bem como “estágios de tempo curto, com acompanhamento de Diretor Técnico e selecionadores nacionais. Os objetivos das seleção nacionais jovens é de “dar-lhes competição na medida do possível, muitos contando já com 100 jogos antes de chegarem à seleção A”, que assume todo este processo, e na qual estamos a “antecipar resultados – por exemplo, o objetivo era ir aos JO2024 e conseguimos antecipar presença em Toquio” [2020/21].
Concluindo no mesmo tom de Rui Lança, Miguel Laranjeiro referiu que “as lideranças muitas vezes não conseguem estar focadas no que é mais importante”, por causa de burocracia, entre outras coisas, sendo necessário vincar “mais foco no objetivo e nas pessoas”.

A preleção de Jorge Braz, seguindo uma matriz muito própria, permitiu passar de uma abordagem de liderança da organização à liderança de equipas de alto rendimento, lançando desde logo a ideia forte de que “há muitos caminhos por onde podemos ir. Não interessa para onde vou, importa saber se estão a querer vir comigo”, ou seja, se treinador está alinhado com organização, e depois equipa.
Por outro lado, ao definir objetivos, o fundamental é não nos esquecermos deles entre o volume diário de afazeres quotidianos, porque “é muito fácil definir objetivos, difícil é lembrar-nos disso, lembrar-me do que defini, todos os dias” para “trabalhar mais e melhor”.
Partindo de um conjunto de “dúvidas” sobre o treino, a competência, e as decisões a tomar, Jorge Braz remete para um questionamento crítico permanente, sobre “a minha matéria profissional“, sobre “saber o que fazem os melhores”, por exemplo, os centros de alto rendimento, sobre linhas evolutivas do jogo, etc., sobre como “quebrar tendências e estar um passo à frente“, e tudo isto para, em posição de liderança, poder constituir “as decisões que tomo”: “onde é que tenho que investir mais?”, “como influenciar o processo enquanto treinador?” são perguntas direcionadoras neste âmbito.
No entanto, é importante “saber o contexto de cada um” e “que comportamentos quero alterar“, porque “já há hábitos” prévios, pelo que esta tríade “contexto, hábitos, relações” deve ser sempre trabalhada, seguindo “princípios e valores“. Lemas como “porque somos pessoas, somos diferentes”, “não está a vida em jogo”, “as derrotas realçam os erros, as vitórias não”, “não há só época de colheitas, há de sementeira e tratamento do longo do ano”, explicitam o que através da sua experiência pode concluir que “o dia mais importante é o dia do treino seguinte – o desporto ensina-nos isto”.

Na fase de debate, foram ainda feitas abordagens associadas aos temas tratados, como “ajudar os jovens a ter responsabilidades”, sobre o que Rui Lança apontou que “fazê-los entender que ter responsabilidade é melhor para eles” assim como “tentar moldar o talento pode deturpá-lo“, ou como podemos garantir que a estrutura resiste após a saída de uma liderança, ao que Jorge Braz salientou que se pode “influenciar contexto, hábitos e cultura organizacional, para que ao sair haja condições para quem vier poder fazer melhor que eu“, sinal de maturidade organizacional.
O 2026 ASPC European Fórum, organizado pelo Rio Maior Sports Centre e pela Fundação do Desporto, com o apoio da Secretaria de Estado do Desporto, do Município de Rio Maior, do Instituto Português do Desporto e Juventude, do Comité Olímpico de Portugal, do Comité Paralímpico de Portugal e do Turismo do Alentejo e Ribatejo, decorreu de 22 a 25 de setembro, em Rio Maior.
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