Terça-feira, 13 Outubro 2026
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A perspetiva de carreira e pós-carreira de atletas de alto rendimento fecha o 2026 ASPC European Fórum

O 2026 ASPC European Fórum, organizado pelo Rio Maior Sports Centre e pela Fundação do Desporto, com o apoio da Secretaria de Estado do Desporto, do Município de Rio Maior, do Instituto Português do Desporto e Juventude, do Comité Olímpico de Portugal (COP), do Comité Paralímpico de Portugal (CPP) e do Turismo do Alentejo e Ribatejo, terminou ao final da manhã de 25 de setembro, com o painel dedicado ao tema ‘Perspectivas dos Atletas: Por detrás das Medalhas, Sistemas de Alto Rendimento, Apoio e Sucesso Sustentável’, contando com a moderação da ex-atleta e Presidente do Conselho de Administração da Fundação do Desporto, Susana Feitor, e ainda Edite Fernandes, Emanuel Silva e Ricardo Bendito.

A primeira, antiga futebolista e capitã da seleção nacional de futebol feminino, tornou-se uma referência no futebol português, com presença internacional em vários clubes e locais, como a China, sendo hoje comentadora na comunicação social, abordou a perspetiva de carreira, liderança e transição no desporto.

O segundo, campeão mundial e europeu e medalhado olímpico em canoagem, na vertente de K2 1000m (2012), é o atual Presidente da Comissão de Atletas Olímpicos, lançou ideias na perspetiva da excelência e representação de atletas.

O último, coordenador do gabinete do atleta no Comité Olímpico de Portugal (COP) desde 2010, e dinamizador do Programa Ahlete 365 do Comité Olímpico Internacional (COI), explanou o trabalho desenvolvido em prol da capacitação de atletas, em termos de carreiras duais, de pós-carreira e de ‘safeguarding in sport’.

Foi mesmo Ricardo Bendito que iniciou a sessão, com a apresentação do Programa ATHLETE365, que através de várias iniciativas e parcerias pretende fomentar abordagens assertivas na transição carreira e carreira dual dos atletas (e não só). A menção a este programa permitiu evidenciar o cuidado com “a pessoa por detrás do atleta”, porque “os CAR lidam com atletas de excelência, mas por detrás está uma pessoa“. “O ecossistema concentra-se nos resultados e rendimento, mas temos que olhar para a pessoa por detrás do atleta”, incluindo no que sucede depois da carreira desportiva.

Este programa, que no fundo é dirigido à comunidade, de atletas, treinadores, equipa técnica, etc., permite estabelecer “um plano desde a parte escolar, o ensino superior e emprego, até ao foco no emprego na altura do pós-carreira, com fases respetivas, dos 15-18 anos, 18-27 e mais de 27 anos”, sendo acessível divulgar e acompanhar, através de uma plataforma que se pode descarregar [olympics.com/athlete365].

Em termos de acompanhamento de atletas, a noção é a de que os atletas, enquanto estão no alto rendimento, vivem “numa bolha muito específica, com rede de apoios, o que é desejável, mas que os torna frágeis, pelo que precisamos de os ajudar a sair dessa bolha, seja por causa de lesões, no final de carreira“, “para não ficarem desamparados“. Mais do que apoiá-los durante a carreira, tarefa que desempenha/va Ricardo Bendito, este aponta a que estes possam “planear desde o início, sem demasiado pressão no início, mas de forma a ter a situação salvaguardada” na altura da retirada, algo que “hoje é visto com outro nível de preocupação”.

Não se trata apenas “de garantir-lhes trabalho, mas envolvê-los na sociedade”, porque eles possuem qualidades que podem ser impactantes nas empresas, por ex.

Com este panorama, Susana Feitor abriu a conversa participada pelos convidados e público, começando por questionar como surgiu o percurso dos dois atletas, com percurso longos, sendo que Edite Fernandes referiu que “queria jogar desde pequena”, e Emanuel “por influência dos amigos, depois experimentar”, até que, já em plena carreira, “quis receber a carta” que confirmaria a presença nos Jogos Olímpicos. As razões simples e inauditas foram confirmadas por Ricardo Bendito, que explicitou outros casos, como o desejo de viajar de Telma Monteiro, ou a carta escrita por Joaquim Videira que lançava um sonho que se realizou, entre outros casos que propulsionaram uma paixão por carreiras no desporto.

Já sobre como é que “entraram no sistema/processo de treinar e competir, ao mais alto nível” tendo que frequentar centros de treino e estágios, o realce foi para a importância “das instalações e das pessoas”. Em Rio Maior, quando estagia com a seleção nacional em 1997, Edite refere que “eram as melhores instalações possíveis na altura“, mesmo que depois tenha visto outro tipo de condições incomparáveis, como as de Pequim.

Emanuel Silva, cuja carreira começa em 1996, acompanhou o nascimento do CAR de Montemor-o-Velho em 2002, que era “uma torre, uma pista sinalizada e um barco de acompanhamento“, mas que teve depois intervenções. Isto mesmo que, porventura com uma mentalidade da época, parecesse que, para treinar, estava mentalizado que “qualquer coisa servia para treinarmos, desde que comesse e descansasse bem”. Já em 2012, num estágio na Polónia, “foi um abrir de olhos, pela diferença, com crioterapia, etc.“, pelo que nota-se um “avanço significativo hoje“, mesmo que perpasse a ideia de que “com pouco fazemos muito”, pois “os atletas valorizam mais o que existe“.

Ricardo Bendito confirma que “o paradigma mudou, hoje os atletas olham para nós, vêem uma estrutura e que estamos aqui para eles”. Como aqui no CAR [de Rio Maior]. Na verdade. defende que “temos que ter alto rendimento no que fazemos para apoiar os atletas”, com vários pólos como mentoria, atenção a redes sociais, nutrição, literacia financeira, para além do acompanhamento do treino. Os atletas devem ter “confiança para nos procurar por ajuda“.

Ao que Edite adiciona a “importância da referência e do exemplo”, passando aos jovens a mensagem que “noutra geração pode ter havido poucas, mas os mais novos têm mais condições“.

A questão das condições comparativamente ao que hoje existe foi reforçada por Susana Feitor nas questões sobre a perspectiva de cada atleta, ao que Edite confessou que “sendo uma modalidade feminina, parente pobre do futebol, na altura“, era algo inacessível, até pelas deslocações, tendo aguentado muitas vezes “por amor à camisola“, mesmo como internacional “com condições muito difíceis”. Pelo que houve um “momento em que concluí que ‘no meu pais não consigo, tenho que emigrar’, tendo passado pela China, Espanha, EUA, Noruega”, e só desde há cerca de 10 anos “temos noção de que as coisas estão a crescer, precisamente quando abandonei… …fui pioneira, com muito trabalho a fazer e a conquistar na modalidade“.

O canoísta Emanuel Silva sintetiza no mesmo tom, que “é importante o atleta ter definido o que quer”, ter, como “atleta de alto rendimento, objetivos de curto, médio e longo prazo”, e estar “rodeado por pessoas boas, sábias e inteligentes”. Quanto a condições de trabalho, é “agarrar o que existe“, sendo que “alguns atletas são mais exigentes que outros”. Em termos de conselho a jovens atletas, sugere que ouçam os mais velhos, porque a “mensagem de segurança” decorrente de “quase 30 anos de carreira” pode ser útil.

Esta ideia foi reforçada por Ricardo Bendito, com programas como o Career+, uma “rede ativa de formação de atletas”, que pode reverter-se no pós-carreira de forma construtiva, “para saberem onde se encaixar num futuro pós competição”, por exemplo sendo “Atletas Speakers – motivacionais para empresas“. Já em termos de CAR, sumariza que “as pessoas dos CAR procuram ser sempre melhores”, sendo que este fórum é importante pela “partilha de experiências e dificuldades”, porque há “problemas comuns, mesmo que soluções diferentes“.

A ronda final aprofundou a questão do final de carreira, a saída da “bolha ou aquário”. Edite Fernandes respondeu a Susana Feitor expressando que “nunca ninguém está preparado, os atletas de alto rendimento tentam sempre adiar ao máximo”, mas “mais vale sair de pé“, pelo que, “apesar de estar em pico de forma, decidiu aproveitar uma oportunidade, ligada à modalidade, noutras funções”, mais de dirigismo, liderança. A questão do “luto” foi preparada ao longo do último ano de carreira.

De vetor contrário, Emanuel Silva “tinha tudo planeado“, com “duas datas definidas: 24 abril 2024 ou os Jogos Olímpicos de Paris”, que seria a sexta participação, mas que não sucedeu, “por isso, na primeira data, numa competição nacional, fiz última despedida”, tendo informado “família e amigos, sem tornar publico” na altura. Dedica-se hoje a um negócio de alojamento local já planeado, e as funções no município de Braga, não estando previsto enveredar por carreira de treinador – “o luto foi feito“.

Estes exemplos, conclui Ricardo Bendito, contrastam com um estudo sobre a transição de carreira de atletas em Portugal, no qual é evidenciado que “30% não tomaram medidas, 40% não têm planos profissionais e 45% vêem a carreira terminada de forma abrupta”.