Na tarde de 24 de setembro, decorreu mais um painel no âmbito do 2026 ASPC European Fórum, organizado pelo Rio Maior Sports Centre e pela Fundação do Desporto, com o apoio da Secretaria de Estado do Desporto, do Município de Rio Maior, do Instituto Português do Desporto e Juventude, do Comité Olímpico de Portugal (COP), do Comité Paralímpico de Portugal (CPP) e do Turismo do Alentejo e Ribatejo, neste caso sobre ‘O que é que o Desporto de Elite espera dos Centros de Treino em grandes eventos?’, moderado por Diana Gomes, antiga atleta olímpica de natação e atual Secretária do COP, que recordou os tempos em que estagiou em Rio Maior, permitindo-a acompanhar o seu crescimento e relevância para o sistema de alto rendimento português, e com a presença de Carlos Lopes, também ex-atleta, mas paralímpico, pelo CPP, Josep Escoda, Secretário-geral do ASPC (Association of Sport Performance Centre) e Diretor do CAR de Sant Cugat, em Barcelona, Mariana Mello, do Comité Olímpico Brasileiro, com mais de 20 anos de experiência em missões olímpicas e paralímpicas e Miguel Arrobas, Presidente da Federação Portuguesa de Natação, e também ele ex-atleta olímpico de natação (Barcelona 92).

A experiência de Barcelona 92 foi, precisamente, apontada por Josep Escoda, por ter permitido “mudar a mentalidade e o panorama no desporto espanhol”, num projeto que “melhorou a cidade, a partir do movimento olímpico”, nuns “Jogos ao serviço da cidade”, provocando que “mais gente se interessasse pelo desporto”, cujo legado ainda se nota.
Miguel Arrobas, à questão do que se espera de um Centro de Alto Rendimento (CAR) para preparar uns Jogos Olímpicos, indica, no seguimento do referido antes sobre o exemplo barcelonense que se os “primeiros atores e testemunhas devem dar ideias”, sendo eles “os atletas e os treinadores”, “os que experienciam dentro da infraestrutura e e os que analisam de fora o atleta, o comportamento e a sua preparação”. Por outro lado, deve haver um complemento de “melhores instalações de apoio ao atletas de alto rendimento”, que sejam “potenciadoras de resultados”.
Com perspetiva de outro contexto e continente, Mariana Mello acrescenta que os CAR devem estar vocacionados, tendo em vista um evento, “o momento final da preparação, e por isso é importante o detalhe”. “O centro escolhido deve estar atento a todos os detalhes, e ser flexível para se adaptar às necessidades de cada um“.
Finalmente, Carlos Lopes remata que “não pode faltar o pressuposto de uma perspectiva de ecossistema, do qual os CAR fazem parte, numa perspectiva integrada, de parceria, em que tudo está interligado, e o atleta é o centro das atenções, em que todas as valências estão ligadas”.

Aprofundando em termos de características fundamentais para um CAR, todos apontam alguns requisitos: Mariana Mello refere como “prioridades os requisitos técnicos, ajustados à competição”, o “ambiente de acolhimento” (o “sentir-se em casa” já referido noutro painel por Jorge Braz), pormenores como o idioma (por exemplo para a escolha de Rio Maior pelas entidades brasileiras), ou a proximidade e fuso horário da competição. Isto porque “normalmente, o estágio ocorre nas duas semanas finais antes da competição”. Bem como a flexibilidade, por exemplo em termos de alimentação, que é uma preocupação dos atletas e da equipa (podendo até levar ou treinar cozinheiros locais).
A questão da adaptação às diferenças de cada país é também referida por Miguel Arrobas como um dos fatores de escolha, através do exemplo do treino em altitude que ele próprio vivenciou ao treinar em Madrid e no México, além de se poder treinar nesses centros com outras seleções, o que potencia alguma competitividade na preparação. Isto com uma base de um “serviço de qualidade, em que o atleta é quase como cliente de hotel premium”. Algo que é hoje mais desenvolvido, com valências como “nutrição cuidada e apoio psicológico“.
Escoda conclui que, apesar da diversidade, todos pretendem seguir “standards internacionais“, seja quanto ao ambiente, seja na qualidade do treino, nas especialidades específicas disponibilizadas, seja nas melhores condições possíveis apresentadas.
Ora, sobre a questão das condições, Carlos Lopes refere a questão das acessibilidades para os atletas paralímpicos. Estando o CPP no processo de “escolher um CAR para LA28”, nota-se que “houve uma grande evolução nesta matéria, mas ainda não é vista na base, logo ao nível do planeamento”. A “acessibilidade não pode ser um improviso, dependente da vontade de pessoas, tem que ser vista na concepção dos projetos. Não é um acrescento, faz parte do alto rendimento”. Exemplos como uma piscina de CAR em que todos os tipos de deficiência possam ter acesso, ou condições para modalidades específicas, como o goalball, o boccia, etc. ainda denotam muita dificuldade em obter condições em alguns centros.

Outra das perspectivas sobre os CAR é a questão de utilização não só na preparação para grandes competições, mas ao longo da época. Questões como privacidade, condições climatéricas, exclusividade, são essenciais “para definir uma base treinos que é decidida com muito antecedência, precisamente por causa disso“, refere Mariana Mello, pois é assim possível “ir levando [os atletas] antes dos jogos, testando, periodicamente, ajustando, simulando até”, para que os nossos profissionais e o atleta tenham as melhores condições”.
Esta ideia é reforçada por Miguel Arrobas, pois os objetivos técnicos e federativos pretendem “aproximar as condições normais às do centro”, “aproximar a experiência com o que vamos viver numa dada competição”. E, claro “que uns JO são o alvo, mas há ansiedade muito antes“, por isso, o “período de qualificação é fulcral”, donde é preciso “ter a perspectiva de longo prazo, por ex. um ano“, incluindo a preparação de campeonatos do mundo, etc. Na verdade, quando se chega ao JO, “o que está feito está feito” em termos de preparação.
Carlos Lopes aproveita para, além da questão das acessibilidade, fazer notar que, em termos de experiência, não só paralímpica, os transportes são importantes tendo em vista o “bem-estar do atleta”, aliado aos “bons equipamentos, adequados às suas caraterísticas e necessidades“. Tudo isto permite “ter maior previsibilidade conforme aproximação dos Jogos, por ex.”, com “flexibilidade para imprevistos“.
Escoda aponta, neste âmbito de gestão da previsibilidade e flexibilidade, que um centro deve ser “capaz de se transformar e adaptar-se“, tendo vista “a eficiência, não o luxo”: “a qualidade do ambiente e infraestruturas” servem para “preparar antes, ouvir as equipas antes de virem”, criando isso sim um ecossistema, apontando o exemplo do pólo aquático espanhol, no qual há “preparação no centro, e depois trabalha-se nos clubes”.

A ligação com clubes e equipas fez ressaltar um ponto, de interligação entre os próprios CAR, porque as deslocações “permitem sair da nossa bolha”, como refere Miguel Arrobas, pelo que, em termos de mensagem aos responsáveis dos CAR presentes, proposta por Diana Gomes, os pontos anteriores foram reforçados: a ligação entre clubes e equipas, a melhoria da acessibilidade logo em termos de planeamento de infraestruturas, a flexibilidade para além da excelência técnica, o acolhimento e compreensão em termos culturais, a disponibilidade da equipa do centro, sendo que todos partilham a ideia de que, “para além dos standards, a grande diferença é como as pessoas estão dispostas a pensar em alternativas e soluções criativas em conjunto com a equipa que estão recebendo”, como resume Mariana Mello.
“Olhar com os olhos dos atletas”, como indica Miguel Arrobas, é essencial porque os “os CAR são parte do nosso sucesso se os atletas forem ouvidos”, adiciona Carlos Lopes. Em suma, Josep Escoda aponta: “preservar os standards internacionais e a qualidade humana da equipa, melhorar e aplicar a certificação para ver onde poderemos melhorar e evoluir, transmitir uma mensagem de que esta redes estão a fazer-nos aprender uns com os outros, porque todos estamos a tentar evoluir para proporcionarmos melhores resultados, a partir da partilha de experiências“. Desde logo, a partir do que neste Fórum se está a conseguir obter em termos de partilha de conhecimentos e experiências.
O 2026 ASPC European Fórum, organizado pelo Rio Maior Sports Centre e pela Fundação do Desporto, com o apoio da Secretaria de Estado do Desporto, do Município de Rio Maior, do Instituto Português do Desporto e Juventude, do Comité Olímpico de Portugal, do Comité Paralímpico de Portugal e do Turismo do Alentejo e Ribatejo, decorreu de 22 a 25 de setembro, em Rio Maior.
Saiba mais sobre o evento aqui.
e acompanhe mais destaques sobre este Fórum na HCDESPORTO.PT.