Terça-feira, 13 Outubro 2026
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A certificação como alavanca de desenvolvimento nos CAR em reflexão no 2026 ASPC European Fórum

No primeiro painel da tarde de 24 de setembro do 2026 ASPC European Fórum, organizado pelo Rio Maior Sports Centre e pela Fundação do Desporto, com o apoio da Secretaria de Estado do Desporto, do Município de Rio Maior, do Instituto Português do Desporto e Juventude, do Comité Olímpico de Portugal (COP), do Comité Paralímpico de Portugal (CPP) e do Turismo do Alentejo e Ribatejo, o tema da ‘Governança, Gestão e Certificação dos Centros de Treino’ foi alvo de um debate moderado por Miguel Pacheco, Diretor do Rio Maior Sports Centre, entre Daniel Marinho, pela European Aquatics (EA), Manuel Valadas Pinho, pela entidade certificadora EIC, Mark Davies, pelo UK Sport, e Pedro Mil-Homens, que liderou o projeto de Academias de Futebol FIFA.

O moderador lançou o painel na perspectiva de abordar a questão da certificação, desde logo com Manuel Valadas Pinho sobre a ISO 9001 (que o centro de Rio Maior detém desde 2015), cujos estudos de caso da EA por Daniel Marinho e da FIFA por Pedro Mil-Homens, antecipam uma aplicação particular no caso do UK Sport, explanada por Mark Davies.

Manuel Valadas Pinho, board advisor da EIC, auditor certificado, consultor em sistemas de gestão e com larga experiência em certificação e auditoria de qualidade, em particular no setor desportivo, estabeleceu um panorama da certificação em geral, aplicando-a depois à Certificação de Centros de Treino. “Para atingir os objetivos a que nos propomos, precisamos que as organizações tenham a capacidade de proporcionar o cumprimento dos respetivos requisitos, necessidades e expetativas”, começou por indicar.

A “importância da qualidade é antiga, começou a a partir de produtos e serviços. Era preciso um mecanismo sistémico tendo em conta o objetivo de satisfazer os nossos cliente e as partes interessadas – daqui surge a ISO 9001“. Associada “a uma forte componente burocrática, que assustava antes mas que tem perdido” esse conotação, tem-se tornado uma ferramenta essencial para a gestão de uma organização – “a ISO 9001 atravessa todas aas áreas, de serviços e produtos, sendo indispensável à esmagadora maioria das organizações”.

Havendo já um modelo conceptual da última versão, que é já de 2026, Manuel Valadas Pinho recorreu ainda à corrente versão, pois os requisitos básico da norma mantém o princípio de “melhoria contínua do desempenho e satisfação”, com o esquema “PLAN-DO-CHECK-ACT”. Por outro lado, foi imprescindível “transportar para o mercado” esta normalização, tendo daqui surgido a “certificação como reconhecimento por entidades independentes de que uma organização cumpre os requisitos num âmbito específico”. A partir do que passamos para “o reconhecimento social e internacional”, pois “qualquer organização certificadora e entidade certificada é aceite em todos os lugares”.

Perto de duas milhões de empresas são certificadas hoje, “cerca de 1042 empresas em Portugal (em 2024)”. Entre estas, alguns exemplos foram listados no setor do desporto: Desmor, SA, Academia de Futebol do Sporting Clube de Portugal, Multidesportivo do SCP, Estádio Universitário de Lisboa, Faculdade de Motricidade Humana, Federação Portuguesa de Golfe, Cidade do Futebol, da Federação Portuguesa de Futebol.

Seguiu-se Daniel Marinho, Professor da Universidade da Beira Interior, com vasto trabalho científico, em particular na avaliação e monitorização de treino na natação, no evento em representação da European Aquatics (EA), da qual é coordenador, abordou precisamente o processo de certificação existente na EA, tendo em conta um trabalho sobre ‘Governança, Gestão e Certificação de Centros de Treino’ desenvolvido por António J. Silva (responsável da EA que estava previsto mas não pôde estar presente), Daniel Marinho, Sílvia Costa e Tiago Barbosa, e “não enfatizando tanto o processo, mas mais os requisitos técnicos”.

A EA Academy é um hub constituído “para o objetivo de desenvolvimento de inovação, educação e formação contínua”, com trabalho em 8 modalidades, incluindo a paranatação, e contando com atletas, treinadores, árbitros e gestores como foco conjunto, “permitindo não só upskilling e reskilling, mas diferentes vias de certificação, com novos cursos e poiando diversas federações“.

Ou seja, pretendeu-se “passar do conhecimento à certificação”, sendo que “o próximo passo será o reconhecimento e certificação de centros de treino (e de investigação [labs])“. Estamos “envolvidos na avaliação e monitorização da natação, em todas as disciplinas aquáticas, para fortalecer o ecossistema da natação, apoiando atletas, bem como conhecer e compreender a qualidade de instalações e serviços, e o pessoal, a partir da avaliação de requisitos técnicos”, resumiu Daniel Marinho.

Ao que passou à mostra do acompanhamento do processo de certificação de alguns centros de treino, atentando nos principais pontos de “qualidade do serviço e instalações”, na “capacidade de oferecer um amplo suporte de atividades” e a “certificação de funcionários”, avançando ainda com a ideia de que os centros se possam tornar em “innovation hubs, com novas ideias, numa cocriação entre ciência e inovação”.

 

Pedro Mil-Homens, Professor da Faculdade de Motricidade Humana que liderou o projeto de Academias de Futebol FIFA, e um reconhecido líder no aconselhamento de Academias de Futebol e do movimento olímpico, focou-se na inspiração para os CAR a partir da ‘Sistemas de Gestão de Qualidade em Academias de Futebol’, tendo em conta a qualidade, a certificação, os sistemas e ambientes de treino, as estruturas académicas, aplicados no ‘FIFA Academy System Project Lead’.

Diretor de Academias durante 20 anos, comenta que, “em 2008 não havia processo de certificação para Academias de Futebol”, tendo depois, na FIFA, “liderado o projeto Sistemas de Academias, com o objetivo de conectar associações membros de federações com as academias desses países”. Isto para “gerar um ambiente melhor para o desenvolvimento de talentos“.

Por exemplo, na aplicação de um sistema de gestão de qualidade no desenvolvimento de talentos, desde logo na relação entre seleções jovens (com experiências internacionais) e Academias (com ferramentas de evolução individual), num “desenvolvimento holístico para um jogador de elite“.

Com “um enquadramento para além das decisões por conta própria, de forma isolada, com procura de resultados a curto prazo”, devemos manter um Quality Management System (QMS), a partir de seis dimensões: standards, reconhecimento, sistema de competição jovem, gestão individual de jogador, treino e formação e seleções nacionais jovens. No entanto, deve-se assumir como uma ferramenta para desenvolvimento da gestão, um “sistema recorrente, não uma inspeção única nem como uma auditoria”.

Trata-se de de “uma estrutura para melhoria contínua, para medir condições que produzem resultados ao longo do tempo, um método para que a prática seja devidamente aplicada, sem ser apenas prescrita, e um circulo recorrente de feedback e ação, sendo por isso importante para todos no sistema: associações, clubes, academias, atletas“.

Um bom QMS tem, desta forma, seis características: “foco no desenvolvimento; evidência pela prática; proporcionalidade de aplicação ao contexto e recursos de uma academia; mínimos absolutos de segurança dos atletas; transparência e honestidade; orientação a longo prazo”, sendo fundamental definir “os fatores críticos de sucesso e seguir critérios definidos”, Por exemplo, “a academia seguir um modelo de jogo definido como princípio a ser avaliado segundo critérios validação com provas, evidências, e não previsões/promessas”. E depois, “reportar os resultados, tornando a qualidade recompensadora”.

Em conclusão, deixou duas recomendações práticas: “não tentar fazer tudo logo – começar com um piloto, e envolver a academia”.

 

Coube a última apresentação a Mark Davies, para demonstrar uma aplicação particular de certificação no caso do UK Sport, numa experiência transformadora da estrutura desportiva nacional. Com mais de 20 anos de trabalho em programas de nível mundial, especialista em ambiente desportivos, e ligado à Loughborough University, no sistema desportivo, Mark Davies contrapôs ao panorama até 2013 o que surgiu através do processo de acreditação do UK Sport Training Elite.

Se antes, “muitos centros, detidos por universidades, municípios e clubes, trabalhavam de forma isolada“, em 2013-14 começou-se a desenvolver uma rede, com colaborações a surgirem por volta de 2014-2016, até que em 2016-2019 ocorreu a “criação de enquadramento e princípios partilhados“, tendo, depois do interregno derivado dos constrangimentos da pandemia, sido desenvolvidas progressivamente as ferramentas até a um piloto de acreditação de um ETC (Elite Training Centre) [o equivalente aos CAR], em 2023.

Esta acreditação permitiu desenvolver programas de “world class performance” (WCP), com princípios orientadores como a auto-avaliação, a cooperação, a sustentabilidade, a equidade, a diversidade, a inclusão, cada um dos princípios com critérios, “sempre com melhoria contínua, vendo oportunidades e desafios e aprendedo uns com os outros”. Os “princípios orientadores como base de acreditação repercutem-se em 50 pontos de avaliação baseadas em evidências”. A linha condutora é mesmo a de “auto-avaliação (self assessment) – revisão por pares (peer review) – acreditação – revisão a médio prazo”.

Mark Davies explicou em termos processuais e documentais a forma como se chegou à marca de acreditação do UKsport, o que permite que “podemos comparar diferentes pólos relativamente ao processo de avaliação”, obtendo uma “rede de ETC interligados”, podendo até “ter aplicação à comunidade, utilização de instalações”.

 

A conversa decorrente das apresentações permitiu comparar a experiência britânica com a de outros países, como o Brasil), concluindo-se que cada tem desafios próprios. Por outro lado, através da formação/educação que faz parte de uma estrutura como esta, pode-se evitar que “qualquer pessoa possa ser indicada como treinador” (como refere Daniel Marinho), por isso “tivemos que transformar o processo para que isso fosse certificado/acreditado – a educação é o centro para estabelecer o sistema e processo”.

A própria questão do design de instalações pode, segundo Pedro Mil-Homens, “ser direcionado em relação aos standards educativos”, construindo um ecossistema composto de “pessoas e processo”. Sempre realçando, como refere Mark Davies, que “no final de tudo, o mais importante é o atleta”, porque não é apenas “criar o ambiente correto, ou construir instalações que faz a diferença“. O processo de certificação, conclui Manuel Valadas Pinho, pode permitir que, a partir do que se faz nos CAR, “outras equipas podem mais facilmente relacionar-se com os CAR“.