Depois de um acidente que lhe provocou a perda das duas pernas, Norberto Mourão encontrou no desporto uma nova etapa da vida. No Fórum da ASPC, em Rio Maior, o canoísta paralímpico destacou a importância da ligação entre saúde, clubes e estruturas desportivas.
Mourão, quando sofreu o acidente, em 2009, estava concentrado numa coisa que, olhando hoje para trás, pode parecer quase banal: avisar os pais e a empresa onde laborava de que não poderia trabalhar no dia seguinte, sinal de que não tinha ainda noção da dimensão daquilo que tinha acontecido. O acidente provocou-lhe a perda das duas pernas e obrigou-o a fazer uma ruptura com a vida que conhecia.
No Fórum da ASPC, em Rio Maior, o atleta paralímpico recordou esse momento e explicou como o desporto acabou por aparecer na sua vida numa fase em que procurava recuperar alguma da autonomia e da identidade que tinha antes do acidente.
“Eu fiz ali um corte com o passado”, explicou, notando que o objetivo maior passou, a partir de certa altura, “voltar a fazer tudo aquilo que fazia antes”, mas cedo percebeu que, para atingir esse desiderato, precisava de descobrir novas ferramentas. E foi precisamente aí que surgiu o desporto.
Mourão começou por ter contacto com a modalidade através das pessoas que conheceu durante o processo de recuperação e na fisioterapia. A canoagem apareceu depois como uma possibilidade que, inicialmente, não fazia parte dos seus planos.
“Eu pensei no remo e na canoagem”, recordou. A experiência acabaria por abrir “um mundo novo” e o percurso levou-o, posteriormente, ao Clube Atlético do Montijo e a uma rede progressivamente mais alargada de contactos e instituições.
“E foi essa rede que fez a diferença. A partilha que existe entre clubes, entre unidades de saúde, entre as pessoas que vamos conhecendo ao longo da nossa vida, vai fazer toda a diferença”, destacou.
O desenvolvimento de um atleta não começa necessariamente num clube ou num centro de treino. “Pode começar num hospital, numa unidade de reabilitação, numa consulta, numa sessão de fisioterapia ou através de uma conversa com alguém que conhece uma modalidade adaptada”, juntou Mourão, revelando que foi precisamente essa cadeia de contactos que permitiu transformar o desporto numa possibilidade concreta.
A partir daí, o atleta construiu uma nova identidade desportiva e encontrou uma forma de realização que ultrapassou a dimensão da recuperação física. O desporto, como lhe foi recordado durante a sessão, tornou-se uma verdadeira ferramenta de recuperação. Mas foi mais do que isso: abriu caminho para uma carreira internacional e para a conquista de medalhas paralímpicas por Portugal.

A mudança pessoal
O percurso exigiu também uma transformação interior. De mudança de hábitos. E a entrada no desporto permitiu-lhe recuperar objetivos, disciplina e sentido de realização.
Porque, e ao contrário de quem nasce com deficiência e cresce integrado nesse contexto, estes atletas enfrentam uma mudança abrupta na relação com o próprio corpo e com as atividades que anteriormente realizavam. No caso de Mourão, o desporto funcionou como uma ponte entre duas fases da vida.
A canoagem acabou por representar não apenas uma modalidade, mas uma possibilidade de reconstrução pessoal e profissional.
Centros e pessoas
O testemunho apresentado em Rio Maior reforça, por isso, uma das questões centrais do debate sobre os Centros de Alto Rendimento: as estruturas físicas são fundamentais, mas não são suficientes.
Um centro pode disponibilizar pistas, piscinas, ginásios, equipamentos e tecnologia. Mas o percurso de um atleta depende também das pessoas que estão ligadas a essas estruturas e da capacidade de criar pontes com outras instituições.
No caso do desporto paralímpico, essa articulação pode assumir uma importância ainda maior.
O desafio, resumiu Mourão, passa, por isso, por garantir que existe uma rede capaz de “identificar talentos, encaminhá-los para as modalidades adequadas” e assegurar que, depois, “encontram condições para desenvolver o seu potencial”.
Para Norberto Mourão, essa rede mudou a sua vida. O acidente marcou uma ruptura. O desporto ajudou-o a construir a etapa seguinte.
Portanto, finalizou Mourão, antes de chegar ao Centro de Alto Rendimento, “o atleta precisa de encontrar uma porta de entrada no desporto. Isso é fundamental para o futuro da pessoa”.
O 2026 ASPC European Fórum, organizado pelo Rio Maior Sports Centre e pela Fundação do Desporto, com o apoio da Secretaria de Estado do Desporto, do Município de Rio Maior, do Instituto Português do Desporto e Juventude, do Comité Olímpico de Portugal, do Comité Paralímpico de Portugal e do Turismo do Alentejo e Ribatejo, decorreu de 22 a 25 de setembro, em Rio Maior.
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