Ao contrário de Mourão e Grachat, que contaram as suas histórias de vida no último painel da manhã de quinta-feira do Fórum da ASPC, em Rio Maior, que teve como tema ‘Perspetivas de Atletas: Percursos, Desafios e Carreiras Duas no Desporto Paralímpico’, Carla Oliveira, atleta de boccia, não sofreu qualquer acidente nem nasceu sem um membro. Teve uma infância “normal” e a doença foi “progredindo” ao longo da vida e perdendo autonomia que a levaram a uma cadeira de rodas. “Tardiamente”, reconhece, descobriu o desporto e, hoje em dia, concilia a carreira internacional com o trabalho e a maternidade.
Carla Oliveira começou a praticar desporto sem imaginar que um dia chegaria ao alto rendimento ou aos Jogos Paralímpicos. Na verdade, durante grande parte da infância e da adolescência, o desporto esteve praticamente ausente da sua vida.
A história que contou no Fórum da ASPC, em Rio Maior, é também uma reflexão sobre a mudança de mentalidades relativamente à deficiência e sobre o papel que o desporto pode desempenhar na autonomia e na vida social de uma pessoa.
Carla explicou que tem uma doença congénita, de evolução progressiva, que começou a manifestar-se de forma mais evidente durante a adolescência. Durante a infância, porém, conseguiu manter uma vida relativamente autónoma e realizar as atividades próprias da idade.
“Eu sempre tive a possibilidade de fazer tudo com autonomia”, recordou. A perceção das limitações físicas foi aumentando durante a adolescência. E foi nessa fase que começou também a sentir as consequências de uma sociedade que, segundo o seu testemunho, ainda encarava a deficiência de uma forma muito diferente da atual.
Nascida no final da década de 1980, Carla cresceu num período em que a pessoa com deficiência era frequentemente vista através de uma perspetiva assistencialista.
Recordou a ideia, ainda presente nessa altura, de que uma pessoa com deficiência era encarada “como um encargo para o Estado” ou como alguém que “teria dificuldades em assumir um papel ativo na sociedade”, visão que sempre rejeitou. Para Carla, essa visão estava profundamente errada.

O desporto que começou por excluir mas serviu de mote para a “descoberta”
Um dos episódios mais marcantes do seu testemunho está relacionado com a Educação Física.
À medida que as limitações físicas aumentavam, Carla deixou de participar normalmente nas aulas. Não conseguia cumprir os padrões definidos pelo currículo e acabava “sentada no banco” enquanto os colegas praticavam atividade física. A experiência teve um efeito contraditório.
Por um lado, afastou-a do desporto. Por outro, criou uma revolta que mais tarde viria a transformar-se numa relação completamente diferente com a atividade física. “O desporto criou-me uma revolta enorme”, recordou.
A descoberta do boccia aconteceu posteriormente. Carla entrou em contacto com a modalidade por volta dos 14 anos, mas não tinha, nessa altura, uma cultura desportiva nem pensava numa carreira de alto rendimento. O mais curioso é que a relação com o boccia começou quase por insistência.
Durante anos, foi sendo questionada sobre se queria continuar. Aos 20 anos, numa fase em que já não estudava nem trabalhava, acabou por aceitar. “Vou sem compromisso”, recordou, acrescentando que o desporto foi “conquistando” espaço progressivamente e transformou-se numa componente central da sua vida.
Hoje, a atleta tem uma carreira internacional consolidada e representa Portugal numa modalidade em que a exigência competitiva é elevada.
A experiência permitiu-lhe descobrir capacidades que provavelmente não imaginava possuir quando estava sentada no banco das aulas de Educação Física.
O desporto passou a significar autonomia, realização pessoal e pertença. “É extraordinário como a vida da pessoa se aprende também em relação às coisas que nos dá, às oportunidades que nos oferece”, resumiu.
Carreira de alto rendimento trouxe novos desafios
Carla trabalha no FC Porto, onde beneficia de compreensão relativamente às necessidades associadas à carreira desportiva. Competições e estágios internacionais exigem disponibilidade ao longo de todo o ano. A situação torna-se ainda mais exigente porque Carla é mãe.
Conciliar maternidade, trabalho e alto rendimento representa uma dificuldade adicional numa carreira que implica viagens, estágios e competições internacionais.
A atleta acrescentou ainda outro dado relevante: é praticamente a única mulher portuguesa internacional na sua classe, o que torna as exigências da participação internacional ainda mais particulares.
Carla referiu que há toda uma estrutura pessoal que precisa de ser compatibilizada com a carreira: emprego, família, maternidade, deslocações e disponibilidade para competir.
O 2026 ASPC European Fórum, organizado pelo Rio Maior Sports Centre e pela Fundação do Desporto, com o apoio da Secretaria de Estado do Desporto, do Município de Rio Maior, do Instituto Português do Desporto e Juventude, do Comité Olímpico de Portugal, do Comité Paralímpico de Portugal e do Turismo do Alentejo e Ribatejo, decorreu de 22 a 25 de setembro, em Rio Maior.
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