Mariana Mello, que iniciou o percurso no desporto paralímpico como treinadora da primeira equipa feminina de jiu-jitsu adaptado no Brasil e trabalha desde 2017 no Comité Paralímpico Brasileiro (geriu, antes, a integração paralímpica nos Jogos Olímpicos Rio de Janeiro-2016), desafiou os centros de alto rendimento presentes no Fórum da ASPC (Association of Sport Performance Centre), que teve lugar em Rio Maior de 22 a 25 de Setembro, a distinguir quatro conceitos frequentemente usados como sinónimos: acessibilidade, inclusão, integração e equidade.
Segundo Mariana Melo, a acessibilidade — rampas, edifícios adaptados — é apenas o ponto de partida e não garante, por si só, inclusão.
A inclusão não assegura que o atleta se sinta parte do sistema com igual relevância, isso passa, sim, pela integração. Mas “integração não é equidade: dois atletas podem partilhar o mesmo espaço sem receberem os recursos específicos de que cada um precisa para atingir a excelência — a diferença entre dar a todos o mesmo (igualdade) e dar a cada um o que necessita (equidade)”, destaca Mariana Mello.

A questão, resumiu, é saber para quem os sistemas de alto rendimento foram, na prática, desenhados: historicamente, infraestruturas, metodologias e modelos de financiamento pensaram sobretudo no atleta sem deficiência.
Às barreiras visíveis (falta de acessibilidade, lacunas de serviços, financiamento) juntam-se barreiras invisíveis — metodologias de treino, sistemas de monitorização e culturas organizacionais pouco preparadas para o desporto adaptado.
“A verdadeira integração no desporto de alta performance acontece quando necessidades específicas são tratadas como exceções e se tornam parte do desenvolvimento dos sistemas. O futuro do desporto de alta performance não será definido apenas pela ciência, tecnologia ou infraestrutura. Será definido pela nossa capacidade de criar ambientes onde todos os atletas têm a oportunidade de alcançar excelência. É hora de pensarmos em cada pessoa e o que cada uma delas precisa para fazer o melhor que possa em qualquer área de suas vidas. E isso não é diferente nos atletas paralímpicos”, resumiu Mariana Mello.

1,3 mil milhões de pessoas têm com algum tipo de deficiência
Citando a ONU, a membro do COB lembrou que 16% da população mundial — cerca de 1,3 mil milhões de pessoas — vive com algum tipo de deficiência. Defendeu que um centro de treino moderno deve deixar de se pensar como “infraestrutura” e passar a funcionar como um “sistema de performance”, ligando treino, ciência do desporto, saúde, tecnologia e apoio ao atleta, com equipamento adaptado, espaços de recuperação acessíveis e comunicação ajustada a necessidades sensoriais e cognitivas.
“Os atletas não precisam de privilégios. Precisam de condições adequadas para competir em oportunidades iguais”, finalizou.
O 2026 ASPC European Fórum, organizado pelo Rio Maior Sports Centre e pela Fundação do Desporto, com o apoio da Secretaria de Estado do Desporto, do Município de Rio Maior, do Instituto Português do Desporto e Juventude, do Comité Olímpico de Portugal, do Comité Paralímpico de Portugal e do Turismo do Alentejo e Ribatejo, decorreu de 22 a 25 de setembro, em Rio Maior.
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