O último painel da manhã de quinta-feira do Fórum da ASPC, em Rio Maior, que teve como tema ‘Perspetivas de Atletas: Percursos, Desafios e Carreiras Duas no Desporto Paralímpico’, foi, sem dúvida, o mais “emotivo” de todos. Por uma razão simples: os intervenientes contaram as suas histórias de vida e a forma como lidaram com o facto de não poderem fazer o que a maioria das pessoas consegue fazer, por diferentes razões. Mas, e aqui reside a lição de várias vidas, foram buscar forças onde pensavam que já não existiam e tornaram-se modelos e referências de muitos.
David Grachat, antigo nadador paralímpico, recordou o percurso que o levou do desporto convencional à natação adaptada e destacou a importância da formação diversificada, do acompanhamento dos treinadores e do apoio familiar.
David Grachat começou no desporto como muitos outros jovens: experimentou modalidades diferentes, numa fase em que o mais importante era aprender, crescer e descobrir o prazer da prática desportiva. Natação, ténis, futebol e orientação fizeram parte de um percurso que, mais tarde, haveria de conduzi-lo ao alto rendimento na natação adaptada. Foi esse percurso, com avanços e obstáculos, que o antigo atleta paralímpico levou a Rio Maior, numa sessão dedicada às experiências dos atletas e à importância dos Centros de Treino e das estruturas de apoio no desenvolvimento desportivo.
Questionado por Leila Marques, do Comité Paralímpico Internacional, sobre os principais obstáculos que encontrou ao longo da carreira, Grachat começou por recordar a paixão que tinha pelo futebol e pelo desporto em geral. O facto de ter crescido numa família que partilhava esse gosto foi determinante. “Gostava muito de futebol. Não gostava só de futebol, gostava do desporto em geral”, recordou, sublinhando a importância dos pais na construção dessa cultura desportiva.
A possibilidade de experimentar várias modalidades acabou por ser decisiva – “pratiquei natação. Depois fui para o ténis, para o futebol, pratiquei orientação e outras modalidades que realmente moldaram o meu futuro e o meu gosto pelo desporto”, disse – , sendo que, a certa altura, devido a ter nascido sem a mão esquerda, foi ‘obrigado’ a transitar da natação convencional para a natação adaptada. Foi aí que encontrou um novo contexto competitivo, mas também um dos primeiros grandes obstáculos da carreira. “Quando entrei nesse ambiente mais competitivo, senti-me um pouco desamparado e sem saber o que fazer”, explicou.
A sua experiência levou-o a uma reflexão que considera particularmente importante para a formação de atletas com deficiência: a transição entre diferentes contextos de treino tem de ser acompanhada e feita no momento adequado. Numa conversa marcada pela emoção, David Grachat reconhece que a sua evolução técnica acabou por acontecer mais tarde do que poderia ter acontecido.
E deixou uma mensagem particularmente forte para quem trabalha na formação e no alto rendimento: uma decisão tomada demasiado cedo ou uma quebra no processo de desenvolvimento pode ter consequências prolongadas.
“Quebrar uma barreira na formação de um atleta pode fazer com que o resto da carreira se possa estragar e um atleta não possa continuar a desenvolver o seu desporto”, afirmou.

Uma deficiência que nunca foi vista como limite
Na conversa com Leila Marques, Grachat foi também questionado sobre o impacto qu27e a prática de diferentes modalidades teve no seu desenvolvimento psicomotor e na forma como lidou com a deficiência congénita.
A resposta foi clara: a deficiência nunca constituiu, para si, um problema central. “Eu nunca tive problemas com a minha deficiência. Eu nasci sem a mão esquerda. E isto nunca foi um problema para mim.”
O papel da família voltou a surgir como elemento fundamental. “O facto de eles me terem dado essa cultura desportiva, de me terem potenciado a praticar vários desportos, ajudou-me a crescer como atleta. Isto tornou-me um melhor atleta.”
A prática desportiva precoce, a possibilidade de experimentar diferentes modalidades e a existência de uma rede familiar e técnica podem determinar a forma como uma criança ou jovem com deficiência encara o desporto.
O alto rendimento começa muito antes de o atleta chegar a uma competição internacional. Pode começar numa piscina, num campo de futebol, num clube, numa escola ou simplesmente numa família que decide proporcionar a uma criança a oportunidade de experimentar diferentes modalidades.
O papel dos Centros de Treino e Alto Rendimento
O papel dos Centros de Treino passa, também, por proporcionar aos atletas possibilidades de experimentar várias modalidades. Devemos perceber, antes de entenderem como treinar melhor um atleta de elite, como garantir que qualquer atleta chega à elite sem perder etapas fundamentais para o seu desenvolvimento.
O 2026 ASPC European Fórum, organizado pelo Rio Maior Sports Centre e pela Fundação do Desporto, com o apoio da Secretaria de Estado do Desporto, do Município de Rio Maior, do Instituto Português do Desporto e Juventude, do Comité Olímpico de Portugal, do Comité Paralímpico de Portugal e do Turismo do Alentejo e Ribatejo, decorreu de 22 a 25 de setembro, em Rio Maior.
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