Terça-feira, 13 Outubro 2026
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António Vasconcelos Raposo entrevistou Mário Gomes num encontro de treinadores de excelência no Dia do Treinador

Nesta sexta-feira, 25 de setembro, comemorou-se o Dia do Treinador, ao qual a Confederação de Treinadores de Portugal (CTP) se associou através de várias iniciativas, culminando numa entrevista moderada por António Vasconcelos Raposo ao Selecionador Nacional de Basquetebol de Seniores Masculinos, Mário Gomes, em formato webinar organizado pela Escola de Treinadores da CTP, e dedicado ao tema ‘Ser Treinador: dos primeiros passos ao futuro’, a partir da perspetiva do percurso do selecionador nacional de basquetebol.

Este encontro entre duas figuras destacadas do treino em Portugal traduziu-se numa conversa imperdível, que contou com cerca de 800 participantes em linha, celebrando a experiência, reflexão e partilha entre Treinadores, da qual destacamos as principais notas juntando a HCDESPORTO.PT a este enaltecimento da valia dos Treinadores.

Num “tempo de encruzilhada”, como António Vasconcelos Raposo comenta num texto que publicou nestes dias sobre os desafios da atividade ligada ao treino e à vida de Treinador, o reconhecimento é uma questão crítica desde logo lançada na conversa. Ao que Mário Gomes correspondeu sublinhando que aceitar o convite para esta entrevista é simultaneamente “um dever e um prazer”.

Às primeiras questões sobre onde fez os “primeiros cestos” e qual o momento em que decidiu tornar-se treinador, MG apontou que aos 9 anos começou a jogar basquetebol, num tempo e num espaço saudados, pois em Algés havia no seu tempo um “espírito” em que os clubes, como o Sport Algés e Dafundo, faziam parte do quotidiano e da formação pessoal. Nesse contexto, a figura de José Curado “angaria-o” para os treinos, marcando-o para sempre. Mais tarde, por volta de 1975, faz um curso de treinadores estagiários, “sempre acompanhado por treinadores”, permitindo-lhe ser monitor de minibasquete, podendo apontar nessa altura o momento em que inicia o seu percurso no treino.

Foto: CTP

À figura indicada junta ainda outras que se tornam suas referências: Mário Bairrada e Jorge Adelino, um trio ao qual se juntam mais dois, “mentores”: Hermínio Barreto, quanto à “formação de jogadores, que é diferente de treinar seniores” – AVR invoca a ideia de que “no treino de seniores, os jogadores jogam para equipa, no treino de formação, a equipa trabalha para formar jogadores” – em particular a experiência do Centro de Treino de Basquetebol; e em termos mais práticos e competitivos, em especial como seu adjunto, Mário Palma. Mário Gomes remata mesmo que “o treinador que sou eu tem que ver com ter sido adjunto do Mário Palma com aquela equipa do Benfica [dos anos 90]”.

António Vasconcelos Raposo aproveita a deixa para perguntar a Mário Gomes qual a derrota com que mais aprendeu (“porque se aprende mais é nas derrotas”), sobre a qual não tem dúvidas – um jogo em que liderava o Benfica, num jogo decisivo, em que perdeu por um ponto, decorrendo de uma questão de preparação em que não soube escolher, porque “um jogador poderia jogar ou não”, ao que também se sobrepuseram “algumas decisões de fora do campo”, algo que me fez “nunca mais cair nesse erro”. Já a equipa que escolheria puder voltar a treinar, “aquela equipa do Benfica anos 90 ou a seleção nacional de agora” foram indicadas de forma assertiva.

O que António Vasconcelos Raposo aproveitou para transitar para o momento atual do basquetebol – com natural interesse – pois à questão sobre “o que mudou” para termos regressado ao EuroBasket após 14 anos alinha alguns tópicos fundamentais: “esta equipa é mais coesa, tem uma química especial”, ou seja, “consegue valer mais coletivamente do que a soma das peças”, sendo claro que os “resultados dependem muito da qualidade dos jogadores” pois “com bons jogadores podemos perder, sem bons jogadores não conseguimos vencer”.

Hoje há uma “mentalidade de competir, de ir a jogo para ganhar, uma vontade de vencer”, com definição clara de objetivos competitivos – como refere António Vasconcelos Raposo, “sem objetivos não vamos a lado nenhum”. Particularmente visível no jogo histórico da primeira vitória frente à Espanha, a “vontade de vencer” cada jogo significou nesse que “acreditávamos que era possível ganhar, nos dias anteriores vamos percebendo os sinais”, como aliás “no caso anterior do jogo da Eslovénia – durante o jogo, bastou reforçar mensagem, cumprir o plano de jogo”.

António Vasconcelos Raposo apontou a “elevada capacidade defensiva” como característica desta equipa, ao que Mário Gomes anui que realmente “temos conseguido baixar a pontuação dos adversários”, e a Espanha, “que tem uptempo, com muitos lances rápidos para pontuar” pode ter sofrido com essa nossa forma de jogar – “a defesa é o pilar da nossa equipa”, sendo preciso ter “tempo para trabalhar, porque a seleção defende melhor nos jogos de verão, quando há tempo para trabalhar mais esse aspeto”. Exemplos disso são termos vencido a Grécia que nos marcou apenas 56 pontos, e perdermos com a Roménia em que “marcamos 96 pontos mas perdemos por falta dessa competência defensiva a compensar”.

Neemias Queta foi, naturalmente, tema de conversa. “Como é a preparação com os constrangimentos em utilizá-lo” foi uma pergunta óbvia, sendo “fácil trabalhar com ele”, a posição que atingiu “não lhe subiu à cabeça – sabe o caminho para chegar, mas sabe de onde veio”. E depois há um “contacto permanente com ele”, assim como ele está “desejoso de vir sempre que pode vir”. Em termos de preparação da equipa, é importante “não mudar muito a forma de jogar, aproveitando melhor as situações específicas em termos de ataque, arriscando mais longe do cesto na defesa”, por exemplo.

Foto: CTP

Ainda sobre esta seleção,  ou esta geração, MG pensa que há uma identidade tática desta equipa, mas quanto ao basquetebol português “ainda não se pode dizer isso”. “As seleções masculina e feminina têm, mas não na generalidade do basquetebol português, se houvesse uma determinada linha de pensamento, seria bom, mas não existe”, comenta o selecionador nacional. Finalmente, sobre o caminho para o Mundial de 2027, está a ser “duro, mas era expectável” – “numa qualificação antes da anterior, tivémos logo seis derrotas, nesta estamos com 50% já na segunda fase, estamos na luta”. No entanto, a convicção é que “podíamos ter passado o grupo com mais vitórias, mas continuamos a depender só de nós, que é fundamental neste tipo de competições”, mesmo que “não se possa considerar um fracasso se não formos. Mas acredito que vamos conseguir“.

A conversa seguiu depois uma perspectiva mais global, na qual António Vasconcelos Raposo desafiou Mário Gomes a confirmar se “a Europa já tem os melhores jogadores do mundo” relativamente aos norte-americanos, ao que MG não hesitou existir “mais influência nossa [europeia] neste momento”, tendo isso “que ver com o modelo de formação: a dada altura a Europa ultrapassou-os em temos de formação tática individual, do conhecimento do jogo, da capacidade leitura do jogo”. O que fez evoluir do ponto de vista coletivo. Referindo Steve Kerr, que afirmou que hoje os jogadores norte-americano com talento individual conhecem pouco do jogo e a maioria não sabe passar a bola, Mário Gomes listou as escolas sérvia, lituana, espanhola ou francesa como das mais avançadas neste momento.

No final, algumas respostas rápidas e a perguntas do público permitiram que Mário Gomes acrescentasse mais quatro nomes essenciais para a sua valia como Treinador: Carlos Teigas, Manuel Campos, Eliseu Beja, Olímpio Coelho, bem como apontar Carlos Lisboa como melhor jogador português de todos os tempos, e Željko Obradović como melhor treinador estrangeiro. O selecionador escolheria repetir jogos como “o recente com a Espanha e contra a Estónia o ano passado”, prefere acompanhar jogos da Euroliga em vez dos da NBA, e assume “ainda estar a tentar compreender na íntegra as novas regras da modalidade, em particular as faltas antidesportivas” [pode sabe mais sobre este tema aqui].

Mário Gomes expôs ainda que, apesar de ser difícil aplicar de forma integral os preceitos do planeamento de treino, tenta sempre cumprir ao longo dos treinos em que pode contar com os jogadores da seleção os passos de “correção do que se passou no último jogo”, “depois, parte de trabalho básico defesa e ataque”, e finalmente, “trabalho de preparação do jogo seguinte”, podendo no “último treino da semana basear-nos no que fazemos e menos no adversário”.

A rematar a entrevista, Mário Gomes expressou que gostaria que, daqui a dez anos, o basquetebol português “estivesse melhor como um todo do que atualmente, com uma cultura de compromisso entre todos, a começar pelos treinadores”. Questionado pelo entrevistador acerca de forma de lá chegar, o selecionador define como pilares “evitar exacerbar dos egos”, “investir no presente” e “dar o melhor de nós”, porque, como defendia Albert Camus, “a verdadeira generosidade para com o futuro consiste em dar tudo ao presente”.

Fotos: CTP