Gabriel Mendes, selecionador nacional de ciclismo, que foi capa da N.º 1 da Revista HC, foi um dos oradores no painel ‘Research, Innovation and Development Centers’ no Fórum da ASPC (Association of Sport Performance Centre), que teve lugar em Rio Maior de 22 a 25 de Setembro. Gabriel começou por historiar o percurso e aposta feita no ciclismo, que ganhou maior impacto após a inauguração do Velódromo Nacional, em 2009, tendo este interlocutor fechado a sua apresentação com um momento que deixou “arrepiada” a maioria dos presentes: o vídeo da medalha de ouro (madison masculino) conquistada nos Jogos Olímpicos de Paris, em 2024, pela dupla Iúri Leitão e Rui Oliveira (foi o sexto ouro olímpico da história de Portugal e o primeiro conquistado fora do atletismo).
Gabriel Mendes revelou que o sucesso alcançado pelo ciclismo de pista português nos Jogos Olímpicos de Paris em 2024 é o resultado de mais de uma década de trabalho desenvolvido a partir do Centro de Alto Rendimento de Anadia, tendo referido, ainda, que, e face aos recursos limitados, a aposta passou pela criação de uma escola e de um grupo de atletas residentes, complementado por praticantes não residentes que alimentavam a seleção Nacional.
“A estratégia começou pelas provas de endurance, aproveitando a ligação existente entre o ciclismo de estrada e a pista, sendo que, assim, a formação de jovens e a melhoria contínua estiveram foram o “cerne” do processo. Existia um compromisso entre a Federação Portuguesa de Ciclismo e o Município de Anadia para criar uma escola de ciclismo de pista. Para mim, essa escola e a academia eram instrumentos de trabalho. Era necessário definir uma estratégia: como desenvolver o ciclismo de pista e por onde começar. Não tínhamos muitos recursos. Durante três anos vivi em Anadia, durante a semana e nos períodos de férias, acompanhando diretamente o projeto. Começámos com um grupo residente de atletas. Eu era treinador, selecionador e, muitas vezes, também tutor. Tínhamos cerca de 10 a 12 atletas. Paralelamente, existia um grupo de atletas não residentes, a partir do qual se constituía a seleção Nacional. Definimos como prioridade o desenvolvimento através das provas de endurance. O ciclismo de pista tem duas grandes áreas, sprint e endurance, e fazia sentido começar pela endurance porque a nossa base de atletas vinha sobretudo do ciclismo de estrada. Era preciso construir pela base. A escola foi extremamente importante para proporcionar aos jovens o desenvolvimento das competências necessárias. O foco estava na aprendizagem e num processo de melhoria contínua”, destacou.

A existência do Velódromo Nacional de Anadia foi, para o selecionador, determinante. “Sem esta instalação, seria muito mais difícil termos ciclismo de pista”, afirmou, considerando o CAR uma ferramenta essencial para o desenvolvimento da modalidade.
O percurso traduziu-se progressivamente em resultados internacionais até atingir o ponto mais alto em Paris. Portugal conquistou duas medalhas olímpicas nas provas masculinas de pista: o ouro no madison, por Iúri Leitão e Rui Oliveira, e a prata no omnium, por Iúri Leitão.
“Em 2013 obtivemos a primeira medalha num Campeonato da Europa de Juniores e sub-23. A partir daí, fomos construindo o nosso percurso. Em Paris-2024 atingimos o ponto mais alto, com duas medalhas olímpicas nas provas masculinas de pista: ouro no madison, com Iúri Leitão e Rui Oliveira, e prata no omnium, com Iúri Leitão. Esses resultados não foram fruto do acaso. Resultaram de muitos anos de trabalho. Um dos atletas medalhados em Paris estava no processo há mais de dez anos. É um processo longo, de formação e melhoria contínua”, sublinhou, lembrando que alguns dos atletas medalhados estavam integrados no processo há mais de uma década.

A aposta para o futuro e o atleta como “variável” mais importante de todas
Integridade, excelência, inovação, colaboração e resiliência são os valores que o selecionador coloca no centro do trabalho.
Para o treinador, o futuro passa por continuar a otimizar recursos, interpretar melhor a informação disponível e tomar decisões apoiadas na ciência, no conhecimento e na experiência. E o atleta é e tem de ser, sempre, o centro de todo o processo.
“Como treinador, lido com muitas variáveis. Não são apenas as relacionadas com o treino, a fisiologia ou a biomecânica. Há um conjunto de fatores que pode influenciar o desempenho. Também não temos recursos infinitos. O nosso percurso foi feito muitas vezes com recursos limitados. O importante é saber geri-los e procurar eficiência. É preciso perguntarmo-nos se necessitamos realmente de mais recursos ou se podemos fazer melhor com aquilo que temos. A nossa perspetiva sempre foi a otimização dos processos e a melhoria contínua. A tecnologia permite-nos hoje recolher uma quantidade enorme de dados. Mas é importante perceber o que fazemos com essa informação. Não devemos colecionar dados apenas por colecionar. Temos de tomar decisões informadas com base na ciência, no conhecimento e na experiência. E, para mim, ao longo destes anos, aquilo que é mais importante é o atleta. O material é importante, as rodas, os quadros e os guiadores são importantes, mas não podemos esquecer que o atleta é a variável mais importante de todo o processo”, finalizou.
O 2026 ASPC European Fórum, organizado pelo Rio Maior Sports Centre e pela Fundação do Desporto, com o apoio da Secretaria de Estado do Desporto, do Município de Rio Maior, do Instituto Português do Desporto e Juventude, do Comité Olímpico de Portugal, do Comité Paralímpico de Portugal e do Turismo do Alentejo e Ribatejo, decorre de 22 a 25 de setembro, em Rio Maior.
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