Diretor do Bio Performance Center, em Madrid, Emiliano Ventura apresentou no Fórum da ASPC – Association of Sport Performance Centres, que decorreu em Rio Maior, num debate moderado pela Professora Rita Santos Rocha da Escola Superior de Desporto de Rio Maior, e que teve como tema ‘Research, Innovation and Development Centers’, no qual participaram ainda Grégory Doucende, Investigador do National Altitude Center CNEA Font Romeu, e Nuno Ramos, da Nelo Kayaks, uma visão de alto rendimento assente na integração entre ciência, tecnologia, saúde, investigação e aplicação prática.
O centro ligado ao Motor & Sport Institute trabalha com atletas de diferentes modalidades, mas também com astronautas, forças especiais e outros profissionais sujeitos a contextos de elevada exigência. Com mais de 10.000 metros quadrados, o Bio Performance Center reúne laboratórios químicos, físicos, mecânicos, de fabrico e robótica, além de equipas de médicos, fisioterapeutas, nutricionistas e treinadores, tendo já trabalhado ali atletas como Álex Márquez, Marc Márquez e Carlos Sainz.
Mais do que testar atletas, a estrutura procura testar a aplicação prática da investigação. Os dados recolhidos são transformados em respostas para a preparação, procurando melhorar a prontidão, a performance, a capacidade de decisão e a recuperação.
“Este centro está a ser apresentado como uma visão daquilo que entendo que deve ser o alto rendimento integrado como um sistema: como os atletas podem trabalhar num ambiente holístico e como podemos transformar tudo o que diz respeito à preparação do atleta em decisões operacionais e práticas no dia a dia. O centro está conectado com a Power Motion, e o que a Power Motion faz é apoiar desde atletas jovens até atletas de alto rendimento, como atletas olímpicos, astronautas ou até, recentemente, investigadores e equipas de forças especiais. A Power Motion é a integração do centro no terreno. E é isto que achamos que deve acontecer como um sistema, como um modelo integrado, para produzir resultados no alto rendimento. O nosso método resulta na implementação de sistemas que avaliamos no centro. Os dados que recolhemos são os dados que os atletas utilizarão no dia-a-dia. Tudo é transformado semana a semana, competição a competição, com diferentes exigências, tendo o corpo humano como a constante que precisamos de melhorar. Nas nossas instalações, testamos atletas, mas mais do que testar atletas, testamos a implementação. E essa implementação, esses dados, resultam em melhores respostas. Uma resposta que pode melhorar a prontidão, a performance, a capacidade e a tomada de melhores decisões em contextos de elevada exigência. Utilizamos os laboratórios para testar novas respostas e novas interferências na cognição, na parte cognitiva e na tomada de decisões”, destacou, na ocasião, Emiliano Ventura.
“Antigamente, um atleta era acompanhado por um nutricionista: ia ao nutricionista e voltava; depois ia ao psicólogo e voltava; ia ao médico e voltava. Todos os sistemas estavam separados. Hoje em dia, o meu psicólogo faz parte da preparação, o meu nutricionista faz parte da competição, o meu médico está nos centros de treino em cada sessão e até os fisioterapeutas estão presentes sempre que é necessário realizar uma cirurgia, porque precisam de entender o corpo humano e saber como melhorar e criar melhores soluções para acelerar a recuperação”, explicou.

A colaboração com a Axion Space
A investigação desenvolvida pelo centro ultrapassa igualmente o universo desportivo. Ventura destacou trabalhos relacionados com astronautas, forças especiais e exploração em ambientes extremos, incluindo uma colaboração com a Axiom Space.
O centro sediado em Madrid trabalha no desenvolvimento de soluções relacionadas com uma futura estação espacial internacional. Segundo Ventura, alguns dos protótipos desenvolvidos neste contexto poderão integrar a nova estação.
A ideia subjacente é que, apesar das diferenças entre um atleta, um astronauta, um elemento de forças especiais ou um explorador, existe uma constante comum: o corpo humano e a necessidade de o preparar para funcionar em condições de elevada exigência.
Mais de 500 vitórias e 28 campeões do mundo
Na apresentação do projeto, Ventura avançou também com números relativos ao trabalho desenvolvido desde 2017.
Segundo o responsável, a estrutura esteve associada a mais de 500 vitórias em diferentes modalidades em contextos de alto rendimento e contribuiu para a formação de 28 campeões do mundo.

Os números da Bio Performance
O Bio Performance Center integra o Motor & Sport Institute, em Madrid, e dispõe de uma área superior a 10.000 metros quadrados. Segundo Ventura, o projeto foi fundado em 2017 por cerca de uma dúzia de cientistas e conta atualmente com mais de 27 cientistas, trabalhando também em ligação com uma comunidade de mais de 6.000 estudantes.
A estrutura dispõe de diferentes laboratórios, desde áreas dedicadas à química e à nutrição até laboratórios físicos, de fabrico, mecânicos e de robótica. A estes recursos junta-se uma equipa multidisciplinar constituída por médicos, fisioterapeutas, nutricionistas e treinadores.
Até o jet lag pode ser combatido com um bom programa
Um dos exemplos apresentados foi uma ferramenta destinada à gestão do jet lag. O atleta introduz os dados da viagem e recebe indicações relacionadas com diferentes momentos do processo, como exposição à luz, alimentação ou utilização de determinadas estratégias para facilitar a adaptação.
É um exemplo de como uma informação aparentemente simples — o itinerário de um voo — pode ser integrada num plano global de preparação.

Uma resposta 24 horas por dia
É precisamente esta capacidade de cruzar informação que Ventura considera fundamental para o futuro dos centros de alto rendimento.
Em vez de o atleta recorrer separadamente aos diferentes especialistas, o objetivo é criar uma resposta integrada e permanente.
“Trata-se de ter todos os dias a melhor resposta, sabendo exatamente como o atleta dormiu, comeu, treinou e o que é necessário em cada área, atuando com uma resposta 24/7 sobre ele”, explicou.
Neste modelo, o treino de hoje não é analisado apenas em função do que aconteceu durante a sessão. É relacionado com o sono, a recuperação, a nutrição, o estado mental, os dados fisiológicos e outros indicadores que possam influenciar a capacidade de resposta do atleta.
O sistema permite, assim, uma adaptação contínua.
Um sistema integrado para o futuro
No final da sua intervenção, Emiliano Ventura regressou à ideia que atravessou toda a apresentação: a necessidade de deixar para trás uma visão fragmentada do alto rendimento.
O futuro, na sua perspetiva, passa por centros capazes de reunir diferentes competências e transformar a informação recolhida em decisões concretas, individualizadas e permanentes.
A investigação, a medicina, a fisiologia, a nutrição, a psicologia, a tecnologia e o treino deixam, assim, de funcionar como compartimentos independentes. Passam a fazer parte de um mesmo sistema.
E esse sistema não se limita ao desporto. Pode ser aplicado, defendeu, a atletas, astronautas, forças especiais ou exploradores, porque, apesar das diferenças entre as atividades, a base continua a ser a mesma: compreender e preparar o corpo humano para responder em contextos de elevada exigência.
Em Rio Maior, Ventura defendeu um centro de alto rendimento não apenas como espaço onde se testa ou treina um atleta, mas como uma plataforma integrada de investigação, inovação e aplicação prática, capaz de acompanhar o indivíduo de forma contínua e transformar ciência em performance.
O 2026 ASPC European Fórum, organizado pelo Rio Maior Sports Centre e pela Fundação do Desporto, com o apoio da Secretaria de Estado do Desporto, do Município de Rio Maior, do Instituto Português do Desporto e Juventude, do Comité Olímpico de Portugal, do Comité Paralímpico de Portugal e do Turismo do Alentejo e Ribatejo, decorre de 22 a 25 de setembro, em Rio Maior.
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