No dia 25 de setembro comemora-se o Dia do Treinador.
Podemos começar por fazer uma pergunta muito simples: é necessário existir um Dia do Treinador?
Da minha parte não tenho dúvidas. É.
Não porque os Treinadores precisem de um dia para lhes dizerem que são importantes. Nem porque precisemos de mais uma data comemorativa no calendário. O Dia do Treinador é importante porque ainda precisamos de lembrar à sociedade a importância de quem treina.
E isto, só por si, já deveria fazer-nos pensar.
Em 2019 começou a ser celebrado internacionalmente o Dia do Treinador a 25 de setembro, associado à Semana Europeia do Desporto e ao movimento #ThanksCoach. A Confederação de Treinadores de Portugal juntou-se a este movimento em 2020 e, desde então, temos procurado aproveitar esta data para dar maior visibilidade e reconhecimento ao papel do Treinador no Desporto e na sociedade.
Mas dar visibilidade para quê?
Tenho defendido ao longo dos anos que o reconhecimento social do Treinador é uma das questões fundamentais para o desenvolvimento do Desporto português.
Um Treinador é sempre um Treinador.
Pode trabalhar no Futebol, Andebol, Natação, Atletismo, Judo, Ginástica ou em qualquer uma das muitas modalidades existentes. Pode treinar crianças de seis anos ou atletas Olímpicos. Pode trabalhar num pequeno clube local ou numa Seleção Nacional. Naturalmente que os contextos, os conhecimentos específicos, os objetivos e as exigências são diferentes. Mas existe algo comum: todos têm responsabilidade sobre pessoas.
E esta dimensão é muitas vezes esquecida.
Quando pensamos num Treinador pensamos normalmente no treino. Pensamos na preparação técnica, tática e física. Pensamos na competição. Pensamos nos resultados.
Vitórias e derrotas.
Mas será que podemos avaliar um Treinador apenas pelos resultados?
Já escrevi sobre esta questão e continuo a pensar exatamente da mesma forma. Cingirmo-nos ao resultado final de uma competição pode ser profundamente injusto. O sucesso de um Treinador também está na evolução dos seus praticantes, na capacidade de os manter ligados ao Desporto, naquilo que lhes ensina, nos comportamentos que promove, na ética, no fair play e, principalmente nos mais jovens, na formação de pessoas.
Um jovem pode esquecer-se do resultado de um jogo que disputou aos 12 anos.
Provavelmente vai esquecer-se.
Mas pode nunca se esquecer do Treinador que acreditou nele quando estava prestes a abandonar. Do Treinador que o ensinou a chegar a horas, a respeitar colegas e adversários, a perceber que perder faz parte, a trabalhar para melhorar ou a assumir responsabilidade pelos seus atos.
Isto também é Treinar.
Aliás, talvez seja uma das partes mais importantes de Treinar.
Há alguns anos referi que o Treinador é um elemento central no desenvolvimento desportivo e um verdadeiro pólo aglutinador, com uma enorme responsabilidade na aproximação dos jovens à prática e na transmissão de valores que depois são transferidos para a vida. Continuo a acreditar exatamente nisso.
Por isso também tenho defendido que o Treinador deve ser um exemplo.
Não significa isto que tenha de ser perfeito. Não é. Como qualquer pessoa, erra. Mas a sua posição perante os atletas dá-lhe uma responsabilidade acrescida. A forma como reage à vitória e à derrota, como respeita árbitros e adversários, como comunica, como gere conflitos, como trata quem joga mais e quem joga menos, transmite constantemente mensagens aos seus praticantes
Muitas delas sem dizer uma única palavra.
Numa conferência sobre Integridade no Desporto tive oportunidade de defender precisamente a importância do Treinador no desenvolvimento de competências e na análise dos comportamentos dos atletas, salientando que, no exercício da profissão, deve ser visto como um “Exemplo”.
E quanto maior é esta responsabilidade, maior tem também de ser a preparação.
Hoje exige-se muito ao Treinador. Tem de dominar a sua modalidade, saber planear, comunicar, liderar, gerir pessoas, compreender tecnologia, interpretar dados, trabalhar com diferentes profissionais, atualizar permanentemente os seus conhecimentos e tomar decisões, muitas vezes sob enorme pressão.
Num artigo científico em que participei sobre a formação profissional do Treinador salientámos precisamente que o Treinador é hoje confrontado com desafios em diferentes domínios e com um forte escrutínio público, exigindo-lhe preparação científica, técnica e humana.
A palavra humana não está aí por acaso.
Recentemente, quando escrevi sobre Inteligência Artificial no treino, voltei a esta questão. A tecnologia pode ajudar muito. Os dados podem ajudar. A ciência ajuda. Mas aquilo que distingue um bom Treinador continua a ser a capacidade de fazer as perguntas certas, interpretar o contexto e comunicar com pessoas reais.
É por tudo isto que o Dia do Treinador é importante.
Só que há aqui um problema.
Não podemos passar o ano inteiro sem valorizar verdadeiramente os Treinadores e no dia 25 de setembro dizer simplesmente: “Obrigado, Treinador”.
O agradecimento é importante. Muito importante. Quem não gosta de sentir que o seu trabalho foi reconhecido?
Mas não chega.
Já o disse anteriormente e volto a repetir: não chega reconhecermos verbalmente a importância dos Treinadores.
Reconhecer significa criar condições para que possam exercer melhor a sua profissão. Significa dignificar a carreira. Significa apostar na sua formação. Significa ouvir os Treinadores nas decisões que lhes dizem respeito. Significa reconhecer as Associações que os representam. Significa dar condições aos muitos milhares que trabalham diariamente nos clubes, grande parte deles conciliando o treino com outra atividade profissional.
E significa também perceber que investir num Treinador não é beneficiar apenas esse Treinador.
É beneficiar todos os praticantes que passam pelas suas mãos.
Quantas crianças e jovens pode um Treinador influenciar durante 10, 20 ou 30 anos de atividade?
Façamos as contas.
É precisamente por isso que o reconhecimento do Treinador é também uma questão social.
Homenagear Treinadores é importante.
Ouvir Treinadores também.
Juntar Treinadores para partilharem experiências ainda mais.
Porque uma profissão também se constrói através da memória daqueles que já fizeram muito por ela, do reconhecimento daqueles que todos os dias a exercem e da preparação daqueles que agora estão a começar.
No dia 25 de setembro devemos, naturalmente, agradecer aos nossos Treinadores.
Eu também tenho muitos a quem agradecer.
Mas gostaria que o Dia do Treinador servisse sobretudo para uma reflexão: que importância queremos realmente dar ao Treinador no nosso Desporto e na nossa sociedade?
Se reconhecemos que tem influência na formação desportiva e humana de milhares de crianças e jovens; se reconhecemos que é determinante no rendimento dos atletas; se reconhecemos a sua importância na promoção dos valores, da ética, da saúde e da própria prática desportiva, então temos também de retirar daí as respetivas consequências.
Não apenas no dia 25 de setembro.
Nos restantes 364 dias também.
Obrigado, Treinador!
Pedro Sequeira
Professor Coordenador na Escola Superior de Desporto de Rio Maior.
Presidente da Confederação de Treinadores de Portugal.
Presidente da Comissão de Métodos da Federação Europeia de Andebol.
Membro da Comissão Executiva do ICCE (International Council for Coaching Excellence).
Árbitro do Tribunal Arbitral do Desporto. Diretor da HCTREINODESPORTIVO.PT