Terça-feira, 13 Outubro 2026
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Transferência de conhecimento para o Desporto de Alto Rendimento em destaque no dia HIGHSPORTUGAL do 2026 ASPC European Fórum

No dia dedicado ao alto rendimento nacional no âmbito do 2026 ASPC European Fórum que decorre até sexta-feira em Rio Maior, organizado pelo Rio Maior Sports Centre e pela Fundação do Desporto, com o apoio da Secretaria de Estado do Desporto, do Município de Rio Maior, do Instituto Português do Desporto e Juventude, do Comité Olímpico de Portugal, do Comité Paralímpico de Portugal e do Turismo do Alentejo e Ribatejo, o segundo painel abordou a ‘Investigação, Inovação e Transferência de Conhecimento no Desporto de Alto Rendimento’, moderado pela Professora Susana Franco, da Escola Superior de Desporto dede Rio Maior, com preleção e debate com os Professores Beatriz Gomes, da Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física da Universidade de Coimbra, e Duarte Araújo, da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa, e ainda Ester Alves, Doutorada em Ciências, Fisiologia e Genética Molecular, pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e Diretora Geral da Estádio Clínica, e João Beckert, Médico Especialista em Medicina Desportiva e em Medicina Física e de Reabilitação, e Clínico do Centro de Alto Rendimento do Jamor.

A Professora Beatriz Gomes, em nome da sua equipa na Universidade de Coimbra, recordou desde logo que a sua ligação ao alto rendimento “vem desde o tempo em que era atleta de canoagem”. Para além de docente, coordena o Laboratório Integrado da FCDEFUC, cujas valências incluem a “avaliação da performance humana, a bioquímica e a composição corporal e antropometria”, constituindo uma “unidade de apoio ao atleta de alto rendimento”, com experiência e recursos acumulados.

Recordando em particular a evolução do Centro de Alto Rendimento (CAR) ligado à canoagem, o CAR de Montemor-o-Velho, apontou um “salto desde o início dos anos 2000” em que constituía-se em dois contentores, pelo que “evoluímos muito para o que é hoje o CAR”, havendo “naturalmente ainda muito caminho a trilhar”. Na FCDEFUC, há uma ligação aos CAR mais próximos territorialmente, de Anadia (ciclismo), Montemor-o-Velho (canoagem) e Coimbra (natação), através do centro de investigação CIPER-UC.

Também na Investigação do Desporto no Alto Rendimento ocorreu uma “mudança de escala”, pois “até há uns anos, tínhamos duas publicações científicas anuais, mas entre 2021-2025, passámos a ter 145” publicações, incluindo sobre desporto paralímpico. A questão que se coloca é então, quanto à transferência de conhecimento para o terreno, ao que a Professora indica que “há um salto que tem que ser dado”, pois “não serve apenas recolher, quantificar, validar”, pois “o contacto no terreno é essencial para gerar novas questões para investigar“.

Perante um “desfazamento entre a permanente procura de novo conhecimento” e “o que pedem no terreno quanto à aplicação constante para otimizar o rendimento”, há desafios que podem ser vistos como oportunidades, entre “laboratório e terreno”, “inovação e aplicação”, “o tempo da ciência e a necessidade de respostas imediatas”, sendo necessário “identificar problemas relevantes”, constituir “equipas multidisciplinares”, e atender aos “dados do atleta e a questões de utilização responsável”.

Duarte Araújo, da Faculdade de Motricidade Humana, enveredou por uma abordagem focada na passagem do foco da IA (inteligência artificial) para a “Inteligência da Performance”, aportando a partir dela “contributos para a transferência de conhecimento”, através de “casos concretos que a ciência coloca à disposição do alto rendimento”, porque “ciência e desporto trabalham juntos”, em que uma das prioridades o alto rendimento deve ser a “construção de um pólo ao serviço da comunidade”.

Partindo da noção de “medição, que faz parte do treino desde sempre”, ocorre hoje uma “revolução digital”, com “abundância de dados, repositórios, poder computacional”. Com a IA, passa-se a uma “facilidade de acesso”, possibilitando “uma tecnologia para análise de performance de desporto”. O mais básico consiste em “obter dados”, mas para tal “é preciso ter conhecimento sobre performance desportiva”, tem que haver sempre uma perspetiva de conhecimento desportivo como suporte a essa pesquisa. Para além de processar dados, há que definir “quais as relações a procurar”, e para além de visualizar resultados, “há que saber interpretar”.

Em suma, “é preciso alguém do desporto nesta perspectiva, mais do que da engenharia ou ciência de computação”. Ou seja, “o conhecimento desportivo enquadra os dados“. O “algoritmo precisa de enquadramento desportivo, porque apenas detecta padrões”. Exemplos do trabalho desenvolvido com este enquadramento foram referidos, seja na Federação Portuguesa de Futebol (FPF), seja no trabalho com a atleta e treinador Patrícia Mamona e José Uva, no qual se explicitou como no estudo sobre comprimento do salto da atleta, a realidade do resultado final que esta conseguiu foi “muito para além do que um algoritmo previu”.

Enfim, “predizer não é explicar” nem “detectar padrões equivale a compreender o comportamento”. É sempre necessária a perspetiva de saber “o que mede, o que omite, que consequências produz?”, pelo que a tecnologia “permite potenciar a ação inteligente, sem a substituir”. Não podemos, de resto, “delegar no sistema a reponsabilidade, que é humana”, apesar desta nova tecnologia “redesenhar a atividade”, mas para proporcionar “mais tempo para gerar mais valor, relações, potenciar o nosso trabalho”. Daí a ideia de “Inteligência da Performance“, com uma IA “integrada no contexto de atividade”.

Ester Alves, Diretora Geral da Estádio Clínica, clínica de alto rendimento, saúde e bem estar (equipa profissional multidisciplinar de profissionais de saúde e atletas com experiência em desporto de alto rendimento”, é também uma ex-atleta, constituindo a sua apresentação na análise de uma “nova fronteira” de análise do exercício, a nível molecular. Passa-se de uma perspetiva histórica ligada à “carga externa” para uma “individualidade biológica” partindo da avaliação biomecânica e fisiológica da corrida, “da rotina normal de uma clínica para novos investimentos e estudos, por forma a perceber melhores tecnologias de análise”.

O panorama de análise de exercício, desde a carga externa, passando pela monitorização, individualização, atinge uma análise “multi-ómica” [abordagem de ponta na biologia e na medicina que junta e analisa vários tipos de dados biológicos de grande escala ao mesmo tempo], pela qual são aportados, a partir de vários estudos, como se pode transformar a noção de “treino otimizado”, marcando uma “diferença entre treinar muito e treinar certo”, concluindo que a “carga externa não substitui a interna, deve ser interpretada em conjunto”, permitindo uma “individualização das zonas”.

A “bibliografia vai nos puxando para uma nova fronteira, molecular”, multi-ómica, em que é possível “mapear moléculas produzidas em stress”, indicar “que proteínas são produzidas, que genes são expressos”. A ideia central é perceber “como é que o exercício produz benefícios para a saúde ao nivel molecular”. Por ex. através de alterações em proteínas, lipidos, hormonas, e outros sinais biológicos”. A informação é “integrada para construir uma espécie de ‘mapa molecular do exercicio'”.

Considerando vários trabalhos desenvolvidos com alunos de doutoramento, sobre atletas (por eexemplo, de corrida de montanha), neste caso, com uma “amostragem de mais de 50 atletas”, com apoio de treinadores de ciclismo, triatlo, corrida, pode-se incidir nesta “componente genética e biológica da fadiga, conforme a “agressão” do exercício”, revelando novas formas de investigação que podem beneficiar o treino e os resultados.

Um dos contributos deixados a partir deste exemplo de atividade de investigação é a ideia de “facilitar os CAR com tecnologia e pessoas capacitadas para diferentes avaliações regulares,
por exemplo com apoio de alunos de doutoramento”.

Finalmente, João Beckert, Diretor clínico do CAR Jamor, lançou um foco desde o cenário macro da constituição do CAR do Jamor, até histórica, até a um foco mais progressivo, no atleta e conforme a tecnologia que especificamente define em especifico este CAR. Havendo duas formas de encarar a ligação entre “investigador e treinador”: uma associada ao serviço de “ajudar e servir o atleta” e outra de “trabalhar num projeto”, “é possível saber conciliar entre serviço e projeto”, com pessoas tecnicamente qualificadas, desde que que se saiba integrar a comunicação com o treinador, por exemplo “para aplicar o estudo”.

Saber adaptar é essencial, por exemplo, atendendo a questões sobre “como se tem medido”, “como tratar os dados mais elementares”, “de onde vem o erro”, etc. Pelo que, em forma de resumo do painel, se federações, treinadores requerem serviços ao CAR, tem que haver equipa multidisciplinar para apoiar o treinador, bem como atender a um apoio aos treinadores na utilização de novas tecnologias (como a IA), havendo pessoas de ligação entre investigação e terreno.

Se a investigação tem aumentado, é preciso transformar o conhecimento rigoroso em informação útil, aproximar-se com a prática, saber utilizar os recursos, sem esquecer o fator humano. O investigador deve comunicar com treinador, e vice-versa, para a transferência de conhecimento. A investigação e a ciência surgem em prol da performance dos atletas, podendo depois beneficiar o funcionamento dos próprios CAR.

Por outro lado, isto enquadra-se na perspetiva mais geral de que “a ciência deve criar impacto na sociedade, para além do impacto dos trabalhos de investigação”, como resumiu a Professora Susana Franco. Em conclusão do debate, resultou a ideia de estimular o ambiente para esta colaboração, em particular no sentido de que um atleta de um CAR possa beneficiar de “uma relação que existe com a ciência e com o impacto com o atleta, a partir do treinador”, que emerge como figura que precisa de “maturidade do conhecimento de interpretação de dados científicos”, assim como de “estabilidade pessoal para se dedicar aos atletas e a aspetos aprofundados”, como “traduzir o que é a ciência, no objetivo de tradução da performance desportiva”.

 

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