O ‘Encontro Nacional do Alto Rendimento’ – o ‘dia HIGHSPORTUGAL’ – inaugurou nesta terça-feira, no Rio Maior Sports Centre, o 2026 ASPC European Fórum, num dia dedicado ao ecossistema português, com sessões de partilha intensa e alto interesse em abordar os desafios presentes e futuros de modelos de governação dos centros de alto rendimento (CAR), transferência de conhecimento no desporto de alto rendimento, desenvolvimento de recursos humanos e impacto dos CAR no sucesso do desporto nacional.

Depois das boas-vindas do Presidente da Câmara Municipal de Rio Maior, Filipe Santana, nas quais afirmou que esta é “cidade do desporto”, desenvolvida através de uma “visão construída ao longo de décadas”, notória não só ao nível de instalações e equipamentos, como o Centro de Alto Rendimento (CAR) e o Centro de Estágios, mas também por se ter afirmado como primeira ‘Smart Sports City’, na qual “alto rendimento se cruza com o desporto escolar” e a tecnologia e o conhecimento estão “ao serviço dos atletas e da população”, com o exemplo maior na DESMOR, que tem repercussões próprias e nas restantes “entidades económicas do concelho”, teve a palavra Harry Bähr, Presidente da ASPC (Association of Sport Performance Centres), seguido da Vice-Presidente Debbie Low, que realçaram a recepção portuguesa para este fórum, e o “trabalho especial da equipa de Rio Maior”, sublinhando a liderança ‘feminina’, neste caso da Presidente do Conselho de Administração da Fundação do Desporto, Susana Feitor, como ‘anfitriã’.
Pedro Dias, Secretário de Estado do Desporto, lançou o evento, e este dia dedicado ao alto rendimento português em particular, referindo a forte ligação ao que representa Rio Maior, numa ocasião em que está presente toda “a rede dos CAR de Portugal, bem como atletas olímpicos e paralímpicos”, sinal de que “o atleta está no centro das nossas decisões”, pois “foi para isso que se criaram os CAR”, como centro de treino, de conhecimento, com serviços especializados, e promovendo a integração do trabalho desportivo com o escolar, por exemplo. A importância da presença de todos os 13 (+ 1) Centros permite partilhar com todos a reflexão que se fará hoje, sublinhando a importância dos quatro temas relevantes propostos: Modelos de Governação e Sustentabilidade dos Centros de Alto Rendimento; Investigação, Inovação e Transferência de Conhecimento no Desporto de Alto Rendimento; Capacitação, Qualificação e Desenvolvimento de Recursos Humanos nos Centros de Alto Rendimento; Impacto dos Centros de Alto Rendimento na Preparação e Sucesso Desportivo Nacional.
Com os “desafios de um país pequeno”, Pedro Dias salientou que tem sido feito investimento mediante “a estratégia de desenvolvimento desportivo que o país tem até 2036” [através do PNDD], na qual os CAR se posicionam como “centros de excelência, de conhecimento e de ciência, pelo que se enquadram nesta estratégia ao nível do alto rendimento”. Neste sentido, desde a criação dos CAR (desde 2015), não tinha sido revisto o documento que os rege, do qual foi pedida a revisão, sempre com “aposta no conhecimento e ciência nas nossas agendas”. O Secretário de Estado contribuiu para reflexão de hoje precisamente a partir do investimento feito – “dos 100 milhões já investidos, 38.9 milhões foram dirigidos aos CAR”, bem como “15 milhões ao desenvolvimento desportivo, conhecimento e ciência, incluindo investigação aplicada ao desenvolvimento desportivo”, para não falar da inclusão, do desporto para todos e das carreira duais.
É que “todas as medidas estão relacionadas”, por exemplo, através da “certificação e formação desportiva”, o que releva decisivamente para os desafios que julga presidirem aos temas do programa de hoje.

O painel inaugural deste dia dedicado ao alto rendimento nacional começou sob o tema ‘Modelos de Governação e Sustentabilidade dos Centros de Alto Rendimento’, com moderação do Prof. Alfredo Silva, da Escola Superior de Desporto dede Rio Maior, com a presença de responsáveis de Centros de Alto Rendimento (CAR) de Anadia, Rio Maior, Vila Real de Santo António, Caldas da Rainha e Viana do Castelo, seguindo uma tripla abordagem sobre um ponto do situação, a situação desejada para o CAR respetivo, e os desafios para chegar a esse desiderato.
Miguel Pacheco, do CAR de Rio Maior, apresentou o complexo desportivo, demonstrando como a organização central permite um ambiente de proximidade e segurança. A DESMOR, “empresa municipal com autonomia administrativa, financeira e patrimonial”, gere o CAR com a “missão de gestão de instalações desportivas e prestação de serviços associados, com abrangência de funções”, tendo 8 diretores e 86 trabalhadores de vários serviços. Tem neste momento dois projetos de atletas residentes (plano nacional de atletas de natação e basquetebol (UAARE)) e um projeto internacional de Solidariedade Olímpica do Comité Olímpico Internacional (COI).
As mais de 22.000 dormidas por ano nos últimos quatro são reveladoras do movimento existente, no qual se enquadram ainda a “operacionalização de programas e projetos municipais, como noutras localidades no país”, a “cedência e organização de ocupação por escolas e clubes”, e a gestão das Escolas de Natação, de Ténis e Padel e do Parque de Arborismo, bem como a “dinamização de centro de negócios, com uma incubadora de empresas”.
A “capacidade de resposta rápida e desmaterialização documental” denotam a proximidade e rapidez de atuação, sendo uma “obsessão” o acompanhamento permanente das Taxas de Ocupação do CAR, incluindo de forma previsional. Isto porque a autonomia financeira e a sustentabilidade económica são objetivos tangíveis. Com um orçamento que supera os três milhões de euros, o “contrato-programa de cerca de 25%” comprova que os “rendimentos decorrem do trabalho desenvolvido”, que “permitem meio milhão para conservação e manutenção do complexo, para se manter competitivo”, com uma “autonomia financeira decorrente de proveitos”, havendo “mecanismos de controlo, desde logo a publicação dos dados no website”, para escrutínio público.
Quanto à situação desejada, é preciso “continuar a investir para ter mais atratividade”, “manter a autonomia face ao acionista”, “reforçar a manutenção” e “aumentar receitas próprias”. Para tal, é preciso “aumentar visibilidade internacional, definir um plano de investimentos para próximos cinco anos, reforçar a imagem da DESMOR, através dos valores de responsabilidade social e ambiental”, enfim, “aumentar taxas de ocupação”.

Telma Luís do CAR das Caldas da Rainha, único CAR gerido por uma federação desportiva, neste caso de Badminton, ressalta a ‘nave’ como ponto chave de toda a ação do centro, sendo a gestão financeira desenvolvida com parceiros como a Câmara Municipal e o Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ).
O “principal problema do dia a dia é a manutenção”, como a instalação de AVAC. Têm sido implementadas melhorias, como luminárias com LED, dispensadores de água e LED informativo em vez de lonas. Neste ano deu-se a “criação de ginásio para uso de atletas de Alto Rendimento”. Nos objetivos de manutenção para 2027 destacam-se a “substituição da tubagem de água e a troca de caldeira de gás por bombas de calor”.
Nos objetivos pretendidos surge “a residência para atletas no CAR”, a internacionalização, a redução dos custos de manutenção e a autonomia financeira. Pelo que os desafios são os de “criar plano de comunicação e marketing para divulgação, a especialização dos recursos humanos, a manutenção dos parceiros institucionais e a modernização de apetrechamento do CAR”, algo sublinhado em mensagem deixada pelo Presidente deste CAR, Duarte Anjo.

Jorge Almeida, do CAR de Anadia, representou um centro gerido, tal como 60% dos centros, gerido por um município. Este CAR, com 17 anos, e multidisciplinar, com as modalidades de ciclismo, ginástica, esgrima e judo, tendo “o CAR de Anadia nascido para servir o Alto Rendimento”, mas apresentando um “desequilíbrio económico, que precisa de ser tido em conta” nos seus objetivos de “excelência desportiva, eficiência e gestão partilhada, integração científica, rentabilização social (ex. com atividades de karaté), atração económica e projeção do território (ex. através do turismo desportivo)”.
O financiamento é garantido pelos rendimentos, pelo apoio da Fundação do Desporto e pelo orçamento municipal (este em 60%), ou seja, o CAR “não é sustentável economicamente”, tendo “necessidade de promover eventos”, o que quando existia apenas a nave como único edifício do centro provocava “problemas de bloqueio de modalidades quando havia algum evento de uma”, pois as outras perdiam acesso durante esse período, pelo que a “estratégia de coordenação seguiu menos eventos, mais estágios”.
Depois de “inauguradas as pistas exteriores, como a de BMX”, tornou-se um “pólo completo de ciclismo”, permitindo desbloquear de alguma forma a situação anterior e provocou que “a União Ciclista Internacional (UCI) olhasse para nós”, como ‘Centro Mundial de Ciclismo da UCI na Europa’, “o que traz mais estágios, conforme pretendido”.
Em termos de desafios futuros, têm que ver com a “estabilização de quadros, a otimização do armazém, a digitalização de controlo e gestão, implementar projetos de eficiência energética (por exemplo, requalificar o telhado depois das tempestades), manter o CAR como referência de seleções, fazer com que o investimento no CAR dê mais retorno para Anadia, [enfim] reduzir o défice e aumentar capacidade de gerar receita”. Ou seja, “o objetivo é ter maior equilíbrio entre missão e sustentabilidade”.

Do CAR de Vila Real de Santo António, Mário Rolla interviu enquanto representante “desde utilizador a responsável” pelo centro, que explicitou ter “grande potencial, mas fragilidades acumuladas”. “O diagnóstico de 2022 exigiu reorganização diária”, referiu, decorrente também das dificuldades financeiras da autarquia, bem como da necessidade de alterar o espírito dos recursos humanos.
O potencial decorre da muita procura, pelo a questão tem que ver com a capacidade de acolhimento – “as instalações hoteleiras do lado espanhol fecham durante oito meses, as do lado português não”. Pelo que a taxa turística permitiu, por exemplo, “a renovação da pista de tartan”, um indício de que o CAR pode fomentar uma “rede territorial” a partir dos três pólos do centro: a pista de atletismo, a frente marítica de Monte Gordo e o apoio logístico de Vila Nova de Cacela, ou não fosse esta uma localização privilegiada, com “capacidade de atrair milhares de atletas”.
Referência internacional de atletismo, recebe de quase 50 países para estágios e eventos cerca de 5000 atletas/ano, sendo a questão de base o “controlo orçamental apertado”. Contudo, desabafa, segue uma “cultura de missão”, defende uma “liderança eficaz [que] está no terreno, não apenas no computador”, para “ouvir tanto atletas como operacionais”, por forma a enfrentar “relação com autarcas difícil”.

Gerido por um clube desportivo, o Surf Clube de Viana (SCV), o CAR de Viana de Castelo, situado na Paria de Cabedelo, foi apresentado por João Zamith, com uma “modalidade atípica, marginal nos anos 90”, que hoje é representada num CAR, cuja “gestão diária é feita pelo clube”, estando sempre aberto. Os valores de inovação, comunidade, performance presidem à atuação neste centro, que se distingue não só pela ligação à academia, com a Universidade Politécnica de Viana e a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro e duas estrangeiras, mas também por um “programa único de náutica nas escolas: os desportos náuticos são curriculares no âmbito da disciplina de Educação Física”, ou seja, o Surf é assumido “da primária ao ensino superior”.
Com um modelo de governação de gestão local, através da cooperação entre entidades, há uma aposta em projetos europeus (como o Erasmus), além dos apoios da Fundação do Desporto e dos Comités em termos de sustentação financeira, sendo que “teremos em breve um centro olímpico de surf de praia”, refere João Zamith. Os valores básicos do “trabalho, paixão, resiliência”, partilhados com os outros colegas representantes de centros, rematam a forma como aborda os propósitos futuros.
Em termos sumativos, as preocupações financeiras estão ligadas diretamente à atratividade, inclusivamente internacional, dos centros, bem como a capacidade de instalações, como residências, podem fomentar melhores resultados, permitindo também dar retorno local, em especial aos municípios que sustentam a sua atividade, rentabilizando centros que têm procura e que podem abrir-se a novas formas de financiamento, como os fundos europeus. O debate deste painel sublinhou, aliás, uma importância do legado que estes centros devem evidenciar: apontar à resolução de problemas, proporcionar autonomia e sustentabilidade, receber cada vez mais e melhor, usufruir mais das “nossas condições climatéricas únicas, de sabermos receber bem, e sermos muito competitivos financeiramente” face a outros locais.

Pelo que é preciso ter, segundo Miguel Pacheco, “capacidade de investimento. Espanha colocou 300 milhões, Portugal tem que investir, e depois nós devolveremos, por forma a não estarmos depois dependentes da administração central”. Por outro lado, João Almeida, defende que, se “o município avança com encargos, por isso tem que ser mais decisor, e outros [acionistas serem] mais consultores”. João Zamith “congratulou os Encontros nos CAR da Fundação do Desporto”, pois é preciso mais formação, pensar em “oferta conjunta, numa plataforma de comercialização, numa promoção externa coletiva”, bem como, segundo Telma Luís, programas e ações que forneçam um “apoio importante para recursos humanos” e agregar serviços como o “apoio na parte psicológica”. Mário Rolla apela à “capacidade de autossuficiência de gestão”, pois “com 800 atletas a entrarem diariamente em VRSA, precisamos de responder com qualidade”. É preciso ainda, em suma, “não vermos os CAR como rivais, mesmo partilhando modalidades” e uma “uniformização na promoção, que permita haver retorno em termos financeiros”.
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