No âmbito da celebração anual do Dia do Treinador, a Confederação de Treinadores de Portugal (CTP) lançou este ano uma primeira iniciativa neste sábado, no Taguspark, Oeiras, numa sessão de Homenagens a Treinadores & Painéis de debates com a participação dos mesmos, representando diferentes modalidades, gerações e perspetivas sobre o trabalho e valor dos treinadores.
Assim, na categoria de Formação, a Treinadora homenageada foi (Ana) Rita Ramalho, de canoagem, e na vertente masculina foi indicado Agostinho Dias Pinto, de basquetebol. Na categoria de Excelência, destacaram-se Ana Seabra, de andebol, e a dupla constituída por Vítor Ferreira e Gonçalo Neves, de natação. Finalmente, a categoria de Carreira homenageou a figura de Vasco Vaz, de hóquei em patins.
Após cada Homenagem, os treinadores consagrados participaram respetivamente em debates sobre temas associados à categoria pela qual foram distinguidos, bem como outros de interesse sobre o treino desportivo e a carreira de treinador.
No primeiro painel, (Ana) Rita Ramalho e Agostinho Dias Pinto abordaram questões sobre o tema “Talento, Treino e Evolução” no trabalho de formação, colocadas por Ana Carvalho, treinador de andebol. Rui Resende, de voleibol, moderou o segundo painel, com Ana Seabra, de andebol, e a dupla Vítor Ferreira e Gonçalo Neves, acerca da “Relação Humana, Crescimento e Transição” no percurso enquanto treinador. Vasco Vaz, de hóquei em patins, foi acompanhado por António Vasconcelos Raposo, de natação, sobre o tema de “Formar para Ganhar, Ganhar sem deixar de Formar”, numa conversa com duas figuras marcantes no panorama histórico do treino em Portugal.


Ana Rita Ramalho e Agostinho Dias Pinto sobre os desafios do talento e da formação
Ana Rita Ramalho, treinadora (no Clube Fluvial Vilacondense), fisiologista (e esposa) do canoísta José Leonel Ramalho, reconhecido campeão do Mundo e da Europa no contexto de uma “geração de ouro” na canoagem, reconhece que as novas gerações terão naturalmente dificuldade em replicar estes resultados atuais, mas isso pode ser fonte de motivação, em particular no desenvolvimento do fator de confiança na transição para senior. Contudo, é fundamental que, para isso, se valorize a “importância da avaliação” (no seu caso, até fisiológica) e a “relação entre atleta e treinador”.
Por outro lado, os jovens treinadores devem utilizar as mesmas estratégias quer para abordar os “atletas talentosos” quer os “talentos em potência”, ou seja, “recebê-los bem, colocá-los com os «pés na terra»”, e trabalhar no sentido de os manter na modalidade por forma a que não a abandonem antes de mostrarem o real valor.
Agostinho Dias Pinto, treinador de basquetebol, Selecionador Nacional Sub-18 de Basquetebol Sub18 (e conhecido pelo seu trabalho no CPN Ermesinde), abordou a questão de, por vezes, se escolher não os “melhores individualmente” mas os “que mais contribuem para fazer melhor a equipa”. Sobre a questão colocada da aplicação atual de treinos individuais e/ou reduzidos na formação, respondeu com a equação de tal poder decorrer de uma “moda” ou da “ambição”, assim como da “necessidade dos clubes” para diversificarem fontes de receita.
Não invalidando essas tendências, o importante será “ajudar em termos de maturação para mostrar o talento”, dado que “falta paciência, o treinador tem que ajudar a saber esperar”, para que não se origine desmotivação. Isto “porque a maturação demora conforme cada atleta”.
Aos jovens treinadores, ambos dedicam palavras para a carreira: “o treinador deve ser honesto, humilde, pensar a longo prazo”, com autocrítica, por forma a conseguir implementar “estratégias diferentes”, “convidar outros colegas” para mutuamente se apoiarem nos objetivos propostos.


Ana Seabra, Vítor Ferreira e Gonçalo Neves e a importância da «relação humana» com atletas para se definir como treinador
Ana Seabra, que conduziu o Atlético Guardés ao título da Taça Europeia feminina (EHF European Cup Women 2025/26), sendo a primeira treinadora portuguesa a vencer uma competição internacional em qualquer modalidade, tendo agora abraçado um novo desafio na sua carreira, na liga romena, ao serviço do CSM Iasi, depois de um percurso em vários clubes e desde vários escalões de formação, definiu logo à partida que o treinador, ao longo do percurso desportivo, deve saber “ajustar-se e adaptar-se, sem abdicar dos seus princípios”, o que se pode aplicar em especial quando se trabalha com várias nacionalidades e culturas, pelo que esse “ajuste” é sinal de “tolerância e de paciência”.
O treinador deve “compreender a evolução individual do jovem atleta”, manter uma “relação próxima”, “criar hábitos, conhecê-los melhor”, sendo que na sua carreira sente que já fez vários papeis, “quase psicóloga” até, o que revela que o desporto além de ser “uma forma de treinar”, é também uma forma deles “crescerem noutras vertentes”.
Mesmo no trabalho de alta competição, com seniores que disputam títulos, e com estruturas superiores, “o conhecimento das atletas” mantém-se importante, mesmo que seja preciso “gerir de outra forma”. Por exemplo, saber “enquadrar alturas de forma com o conhecimento das atletas”, bem como saber ajustar-se a outro “perfil das jogadoras, até em termos técnicos” que sentiu na passagem de Espanha para a Roménia.
O mais importante é o “processo não só de as guiar mas de mostrar «as ferramentas» que podem utilizar em termos de tomada de decisão”, o que torna “visível quando atletas têm iniciativa de darem ideias, tentando ler o jogo”, com maturidade suficiente para a autocrítica, mesmo em situações mais frustrantes ou desafiantes, “há diferentes formas de reforçar para autonomia”.
Aliás, “desde a formação, devemos ir criando um pensamento crítico, de conhecimento próprio, saber como cada um pode ajudar a equipa, saber que o andebol é naturalmente´um jogo e falhas´”, pelo que o seu trabalho como treinadora se pode resumir como “mostrar os princípios de jogo, que prenunciam depois os desenvolvimentos das ´jogadas´ com que atinge o objetivo”, ou seja, “guiar para proporcionar depois essa autonomia”.
Regressando a uma abordagem em termos formativos, há que “não esquecer o básico para fazer crescer os ´de baixo´, sem esquecer os ´de cima´. Alguns atletas podem precisar de mais explicações ou repetições”.
Os treinadores Vítor Ferreira e Gonçalo Neves acompanharam os nadadores portugueses Camila Rebelo e Diogo Cancela, com resultados recentes nos Campeonatos Europeus de Desportos Aquáticos, realizados em Paris, França, de 10 e 16 de agosto de 2026. Trabalhando no Centro de Treino de Alto Rendimento de Coimbra, integram no seu trabalho atletas de natação pura e adaptada, constituindo-se como referências da nova geração de treinadores de natação nacional, desde o seu trabalho na Associação Louzan de Natação.
Prosseguindo a tónica do painel anterior, Gonçalo Neves, cuja carreira passou do futebol à natação, defendeu que é preciso, “em primeiro lugar, assumir que treinamos pessoas”, pelo que também na natação o processo de formação natação tem a dificuldade de “cativar, motivar para manter atletas perante a carga e o sacrifício necessários”, pois há “treinos bidiários, físicos, quase sem tempos livres, e menor resiliência dos atletas” (desde logo no exemplo de “acordar cedo para ir treinar”). Pelo que o treinador que o jovem atleta precisa é aquele “que consiga motivar e com vontade de treinar”. Ao que Vítor Ferreira acrescentou que deve ser “alguém que saiba os valores que defendemos, cumprir as regras das quais não abdicamos, e incutir a dinâmica que quer passar”.
Ou seja, por um lado, para poder acompanhar o atleta ao longo do tempo, para Vítor Ferreira, é importante “conseguir solidificar a relação com resultados”, bem como não se trata apenas da “nossa adaptação ao atleta, mas dele também à filosofia do treinador”, desde o momento em que ele mostra o caminho proposto e o atleta aceita prosseguir. Neste âmbito, surge a necessidade de, segundo Gonçalo Neves, “articular e diferenciar a relação como treinador e como amigo, em especial desde pequenos até juniores”, mantendo as “exigências e regras apesar da relação afetiva inicial”, por exemplo.
Aliás, sublinha, a relação ao longo do tempo “nota-se mais na [natação] adaptada, com o estímulo a dar: por exemplo, em S8, S9, S10, é preciso receber as sensações que atleta dá, e ajustar. Ainda mais, em termos de esforço, por exemplo quando ele [Diogo Cancela] só tem um braço”. Vítor Ferreira refere, neste ponto que “numa fase mais específica, nos juniores, os atletas começam a dar retorno sobre o percurso. Por exemplo, sobre tarefas, conseguindo dar feedback do que sentem”, sendo importante também na articulação entre estudos e treinos, envolvendo-o na planificação.
Por fim, à ideia da clareza da filosofia do trabalho, deve-se aliar o trabalho para a autonomia na tomada de decisão dos atletas, articulando o que os três treinadores foram propondo. Sempre com a ideia de fundo de, em termos de formação, “deixar os campeões para depois, primeiro formar pessoas”. E, de uma forma geral, segundo Vítor Ferreira, “se deixar de haver confiança, talvez seja melhor deixá-los ir. Ou porque queriam outro treino, ou porque não aceitavam princípios ligados à confiança até do grupo. Também é preciso não ficarmos iludidos e perceber até quando é que estamos a promover a evolução do atleta”.

Vasco Vaz: retrospetiva de uma carreira com foco em objetivos futuros
Vasco Vaz, Selecionador Nacional de Hóquei em Patins, no escalão sub-19, Professor e Diretor da Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física da Universidade de Coimbra (FCDEFUC), referiu ao receber a Homenagem de Carreira, que apesar de estar a comemorar “as bodas de ouro como treinador”, está presentemente focado nos desafios seguintes, pois “daqui a três semanas quero ganhar um campeonato do mundo”.
No Painel “Formar para Ganhar, Ganhar sem deixar de Formar”, moderado por António Vasconcelos Raposo, recordou como é que se tornou treinador, numa altura em que coleciona resultados internacionais em escalões de formação, sendo um destacado Professor universitário com vasta produção científica periódica, associada à “sua Universidade de Coimbra, mas tendo começado em Moçambique, “desde pequenino habituado ao desporto”, com várias modalidades praticadas, tendo-se iniciado aos 16 anos a treinar uma seleção jovem, em condições muito diferentes das atuais.
Comentando sempre em termos comparativos com a atualidade, Vasco Vaz refere que “algumas modalidades dependem da “carolice” dos treinadores”, que a questão do “desaparecimento de instalações” condiciona o desenvolvimento desportivo, e que “os desportos coletivos precisam de planeamento desportivo de treino”, algo diverso do que ocorria antigamente. Chegando aos 17 anos a Portugal, volta a estar ligado a uma seleção, mas como atleta, além da sua ida para Coimbra marcar de forma permanente todo o seu futuro.
Criou “uma escola de hóquei em patins, primeiro passando pela patinagem”, outra coisa em que “hoje é diferente, começa-se quase logo com o stick”, tendo sido treinador da Académica, jogador em Tomar, tendo decidido ir para a “sua” Faculdade de Desporto em Coimbra quando esta abriu. O tempo passou, em 2003 concluiu o mestrado, e em 2010 o doutoramento.
Tendo sido já campeão da Europa como treinador três vezes, o objetivo de ganhar um campeonato do mundo permite-lhe abordar aspetos do trabalho enquanto selecionador, desde o processo de seleção, com a captação, os estágios de observação, os centros de estágio, até à convocatória e os jogos de preparação, no que beneficia para a integração de atletas “do início de época, em setembro”, pois logo numa primeira pausa de clubes se lhe permite trabalhar com os atletas, definindo todo o acompanhamento dos mesmos.
Uma das características notáveis no Hóquei em Patins é a velocidade do jogo, que tem aumentado tal como de uma forma geral em todas as modalidades. Na verdade, hoje um jogador “não pode estar 15 minutos no campo”, antes “está sempre a entrar e a sair”, o que mesmo que não se concorde, é nota de uma evolução do jogo – aliás, para incrementar essa tendência, porventura ligada aos apelos das transmissões televisivas, ao apelo dos media, de maior velocidade no jogo, “tentaram substituir o Hóquei em Patins pelo Hóquei em Linha”, mas à maior velocidade, tal proporciona menos agilidade e menos técnica.
Outra das características únicas do Hóquei tem que ver com as tabelas que constituem um problema nos pavilhões, incomodando o trabalho “nas outras modalidades”. Mas são precisamente as tabelas que permitem a tal maior velocidade característica, pois “a bola não sai, permite ter mais velocidade no jogo”.
Retomando temas “formativos”, o Prof. Vasco Vaz apela à “compatibilidade educativa e desportiva”, pois “é preciso brincar, proporcionar ambiente de treino”, tal como defende o Prof. Carlos Neto. Aliás, “faltam estudos de abandono de atletas”, que por certo apontariam a necessidade de haver “treinos motivadores do próximo treino”, “sem esquecer o perfil dos jovens atletas”, a questão dos estudos, etc.
Finalmente, os principais conselhos, de resto partilhados pelos outros homenageados, para os jovens treinadores, são que “as formações são essenciais”, que devem “pertencer e participar na classe” e que “primeiro ensina-se, depois treina-se”.
Fotos: CTP