Terça-feira, 13 Outubro 2026
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Os Valores Fundadores do Desporto – desafios da sua preservação e promoção nas sociedades contemporâneas – por Manuel Brito

Discurso apresentado na sessão “Em Defesa dos Valores do Desporto” do Panathlon Clube de Lisboa, a 25 de junho de 2026

 

Minhas Senhoras e Meus Senhores,

É com muito gosto que participo nesta reflexão sobre um tema absolutamente central para o presente e para o futuro do desporto: a preservação dos seus valores fundadores num tempo marcado por profundas transformações sociais, económicas, políticas, culturais e tecnológicas.

Quando falamos dos valores do desporto, não falamos apenas de regras, competições ou resultados. Falamos de princípios que moldaram gerações e que fizeram do desporto uma das mais importantes escolas de vida criadas pela humanidade.

O desporto é muito mais do que uma atividade física. É uma linguagem universal. É um espaço de encontro entre pessoas diferentes. É um território onde se aprende a competir sem destruir, a vencer sem humilhar e a perder com dignidade.

Desde a sua génese moderna, inspirada nos ideais olímpicos, o desporto assenta em valores como o respeito, a honestidade, a lealdade, a solidariedade, a disciplina, a responsabilidade, a igualdade de oportunidades, a amizade, a excelência e o fair play. São estes valores que lhe dão sentido. Sem eles, o desporto perde a sua alma.

Ao longo da minha vida, ligada à educação, ao desporto e à cidadania, tive o privilégio de observar uma realidade simples, mas profundamente significativa: aprende-se muito no desporto – muitas vezes mais do que em qualquer outro contexto.

Aprende-se a trabalhar em equipa. Aprende-se a respeitar regras, adversários e árbitros. Aprende-se a aceitar decisões desfavoráveis. Aprende-se a lidar com o fracasso e a persistir perante as dificuldades. Aprende-se que o esforço continuado vale mais do que o sucesso imediato. E aprende-se, sobretudo, que ninguém constrói nada de verdadeiramente relevante sozinho.

Mas importa colocar uma questão essencial: estão hoje estes valores a ser devidamente protegidos? A resposta não é simples.

Vivemos numa época de grandes oportunidades, mas também de grandes riscos. O desporto nunca teve tanta visibilidade, tantos recursos e tanta influência. Mas, precisamente por isso, enfrenta desafios cada vez mais complexos.

Hoje, o desporto confronta-se com fenómenos que ameaçam a sua credibilidade e o seu valor educativo: o doping, a manipulação de resultados, a corrupção associada às apostas, a violência, o racismo, o assédio, a intolerância e a erosão progressiva de referências éticas.

Todos estes fenómenos têm algo em comum: colocam em causa a confiança. E sem confiança, não existe desporto.

 

 O primeiro grande desafio é o da crescente comercialização.

A profissionalização trouxe benefícios inegáveis: mais e melhores infraestruturas, maior preparação dos atletas, evolução científica e técnica, mais visibilidade e novas oportunidades. Mas quando a lógica económica se torna dominante, surgem desequilíbrios evidentes. Em demasiados contextos, a vitória passa a ser o único critério. O resultado vale mais do que o processo. O lucro sobrepõe-se à missão. O espetáculo substitui a formação. E quando isso acontece, os valores deixam de orientar o desporto e passam a ser apenas discurso.

É neste contexto que ganham terreno práticas como o doping – uma fraude desportiva e uma ameaça à saúde – e a manipulação de resultados, que destrói a verdade do jogo e a confiança nas instituições.


O segundo desafio é o da hipercompetitividade
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Vivemos numa sociedade obcecada pelo desempenho e pelo sucesso imediato. E essa cultura entrou no desporto. Cada vez mais cedo, crianças e jovens são submetidos a processos de especialização intensiva, com cargas de treino elevadas e expectativas frequentemente desajustadas.

O risco é evidente: transformar uma experiência de desenvolvimento integral numa fonte de pressão precoce. O desporto infantojuvenil não pode ser uma versão reduzida do desporto de alto rendimento ou profissional. Deve ser, antes de tudo, um espaço lúdico, de formação, de prazer, de descoberta, de crescimento e de desenvolvimento. Formar atletas é importante. Mas formar cidadãos é ainda mais importante.


O terceiro desafio decorre das transformações tecnológicas.

As redes sociais alteraram profundamente a forma como o desporto é vivido. Aproximaram pessoas, democratizaram o acesso e ampliaram a visibilidade. Mas também abriram espaço à desinformação, à polarização e ao discurso de ódio.

Nunca foi tão fácil comunicar. Mas também nunca foi tão fácil faltar ao respeito. O desporto não pode ser contaminado por esta lógica. Precisa de promover uma cultura assente na responsabilidade, no respeito e no sentido critico.

 

O quarto desafio é o enfraquecimento do voluntariado e do associativismo.

O sistema desportivo continua a depender do trabalho generoso de milhares de pessoas que servem as suas comunidades. Mas as exigências burocráticas aumentaram, as responsabilidades são maiores e o reconhecimento nem sempre acompanha o esforço.

Se não formos capazes de simplificar processos e valorizar quem se dedica ao desporto, corremos o risco de enfraquecer uma das suas bases mais nobres.

Importa, aliás, sublinhar que o desporto e a vida associativa desportiva são também uma verdadeira escola de democracia. Nos clubes, nas associações e nas federações exercita-se a participação cívica, o debate de ideias e a responsabilidade coletiva. É aí que muitos cidadãos têm o primeiro contacto com práticas democráticas concretas: participar em decisões coletivas, votar, eleger e ser eleitos, assumir funções e prestar contas.

Mas é precisamente por isso que devemos olhar com preocupação para uma tendência crescente: a interferência política no desporto. Quando interesses conjunturais, conflitos geopolíticos ou instrumentalizações partidárias se sobrepõem à autonomia das instituições desportivas, comprometem-se a credibilidade, a estabilidade e a confiança no sistema.

O desporto deve dialogar com o poder político, mas não deve ser capturado por ele. Preservar a sua autonomia é condição essencial para proteger os seus valores.

 

O quinto desafio é a inclusão.

O desporto tem de ser um espaço aberto a todos, independentemente do género, da condição económica, da origem, da idade ou da existência de deficiência.

A inclusão não pode ser apenas um princípio. Tem de ser uma prática concreta. E isso exige acessibilidade, politicas consistentes e uma cultura efetiva de respeito pela diferença.

 

O sexto desafio é o aumento da prática desportiva e a construção de uma verdadeira cultura desportiva em Portugal.

Apesar dos progressos alcançados nas últimas décadas, Portugal continua a apresentar níveis de prática desportiva inferiores aos desejáveis. Uma parte significativa da população permanece afastada da atividade física regular, com consequências para a saúde, para a qualidade de vida, para a integração social e para o próprio desenvolvimento humano.

Esta realidade obriga-nos a refletir sobre uma questão fundamental: queremos um país que assista ao desporto ou um país que pratique desporto?

O desporto não pode ser encarado apenas como uma atividade destinada aos atletas federados ou aos mais jovens. Deve fazer parte do quotidiano dos cidadãos, independentemente da idade, da profissão ou da condição social. Precisamos de transformar o desporto num hábito de vida e numa dimensão integrante da cultura dos portugueses. Tal exige uma ação articulada entre o Estado, as autarquias, as escolas, os clubes, as universidades, as empresas e as famílias. Exige melhores condições de acesso, mais oportunidades de prática, mais valorização da educação física e do desporto escolar, uma articulação mais eficaz entre a escola e o movimento associativo desportivo e políticas públicas consistentes que promovam estilos de vida ativos ao longo de toda a vida.

O aumento do número de praticantes não deve ser visto apenas como um indicador estatístico. Deve ser encarado como um objetivo estratégico nacional. Uma sociedade fisicamente mais ativa é também uma sociedade mais saudável, mais participativa, mais inclusiva e mais preparada para enfrentar os desafios do futuro.

Se queremos preservar os valores do desporto, temos igualmente de garantir que esses valores chegam a um número cada vez maior de cidadãos. Porque o desporto só cumpre plenamente a sua missão educativa e social quando é vivido e praticado pelo maior número possível de pessoas.

 

Perante este cenário, importa afirmar caminhos claros.

Em primeiro lugar, reforçar a educação para os valores desde a base, nomeadamente através da educação física e do desporto escolar.

Em segundo lugar, colocar a ética no centro das políticas desportivas – não como retórica, mas como critério de decisão.

Em terceiro lugar, investir seriamente na formação de dirigentes, treinadores e agentes desportivos. Os valores ensinam-se, sobretudo, pelo exemplo.

Em quarto lugar, valorizar e simplificar o associativismo, reconhecendo o seu papel insubstituível na coesão social, na participação cívica e na formação democrática.

Em quinto lugar, reforçar a articulação entre escola, clubes, famílias e comunidade. A educação para os valores é uma responsabilidade partilhada.

E, finalmente, afirmar de forma clara: o desporto é um bem público.

Mesmo quando organizado por entidades privadas, o seu impacto é coletivo. Contribui para a saúde, para a educação, para a inclusão, para a cidadania e para a coesão social.

 

Minhas Senhoras e Meus Senhores,

O desporto tem demonstrado, ao longo da história, uma notável capacidade de adaptação.

Mas não podemos ser ingénuos. Os valores do desporto não se preservam automaticamente. Exigem vigilância, compromisso e ação.

Num mundo marcado por divisões, individualismo e incerteza, o desporto continua a oferecer algo raro: uma linguagem universal baseada no respeito, na cooperação e na superação.

A questão não é saber se estes valores continuam atuais. A questão é saber se teremos a coragem de os colocar no centro das nossas decisões.

Porque, no final, o verdadeiro sucesso do desporto não se mede apenas em medalhas, recordes ou títulos. Mede-se na qualidade dos cidadãos que ajuda a formar. Mede-se na força das comunidades que ajuda a construir.

E mede-se na capacidade de contribuir para sociedades mais justas, mais solidárias e mais humanas. Muito obrigado.

 

Manuel Brito
Licenciado em Educação Física e mestre em Ciências da Educação/Metodologia da Educação Física, desempenhou vários cargos em organismos ligados ao desporto, entre os quais o de presidente do Instituto Nacional do Desporto, atual Instituto Português do Desporto e Juventude, e dos conselhos nacionais antidopagem e contra a violência no desporto.
Foi também vice-presidente do Comité Olímpico de Portugal (2009-2011), onde exerceu as funções de Presidente do Conselho de Ética entre 2017 e 2019.
Presidente da Autoridade Antidopagem de Portugal (ADoP) durante seis anos, até 2025.

A HCDESPORTO.PT agradece ao Panathlon Clube de Lisboa (PCL) a autorização de publicação.