1
O mês de setembro significou sempre na minha vida o «início de época», neste caso, desportiva. Ao longo de quase quarenta anos, a rotina habitual de «começar de novo» algo que nunca se repetia. Principalmente, porque se prosseguia um caminho de investigação e aprofundamento de conhecimentos, como por exemplo o da importância de «Pensar e Intervir como um Treinador».
Ser Treinador implicava ser capaz de ser COACH, mais concretamente:
– C-uidar dos atletas individualmente e da equipa como um todo,
– O-bservar e acompanhar,
– A-gir com justiça e sabedoria,
– C-omunicar com impacto emocional,
-(H-elp) Ajudar a melhorar competências.
Também ler muito e refletir (ainda mais!), sempre preocupado com a afirmação que me norteia: «quem não melhora, piora».
Nos diferentes enquadramentos, pretendi transmitir a mensagem contida no meu último livro, de 2026, Viver a Vida (HC Editora), de onde cito: “O comportamento humano deve ser entendido como uma continuada vivência do sentimento de “Viver a Vida”; e este constante “sentir e fazer sentir” que significa “Viver a Vida” não pode ser dimensionado parcialmente com base na anatomia, na biologia, na psicologia, na fisiologia, etc. […] Enquanto seres humanos, somos um todo holístico que experiencia, aprende e evolui. […] Aqueles com quem nos relacionamos sentem-nos de modo integrado e global”.
«Viver a Vida» pressupõe assim usufruir na sua plenitude de tudo aquilo que nos possibilita a nossa capacidade de perceber e de sentir tudo o que nos envolve, e “também de fazer por sua vez sentir e ajudar aqueles com quem nos relacionamos a terem idênticas experiências. No fundo influenciando, sem nunca deixar de influenciar”. Precisamos afinal (todos!), de estar atentos ao nosso comportamento diário no decurso do próximo período entre setembro de 2026 e agosto de 2027. Defendendo diariamente o que acrescentei num outro meu livro recentemente publicado também através da HC Editora e da Apogesd, com o título Desporto Português que Comportamentos?: “Como é que então cada Pai, Professor, Dirigente, Gestor do Desporto, Treinador e Árbitro, pode melhorar a nível comportamental? Sentindo, percebendo, imaginando, pensando, agindo, com base num gradual “saber do corpo” adquirido através da repetição frequente que conduz a uma aquisição dos hábitos pretendidos”.
2
Ou, antecipando desde já o que irei defender no meu próximo livro, a publicar em breve também pela HC Editora durante esta «nova época», intitulado Equipas Inteligentes: “Ao pretendermos potenciar os EUS ao serviço do TODO, fazemo-lo mediante os valores, as crenças e as regras sociais adquiridas até então. Enquanto EU, a opinião que formulamos fazendo parte de um TODO, representa simplesmente a “nossa verdade”. Obviamente, “a nossa verdade” que coincidirá ou não com “a verdade” daqueles que, como nós, fazem parte do mesmo TODO. […] Razão porque urge ouvir os outros membros do coletivo, perceber quem interpreta a realidade envolvente de modo conforme com o nosso, estabelecer eventualmente objetivos comuns, cooperar sempre que possível, trabalhar em equipa, partilhar saberes. […] No fundo é fundamental estarmos abertos às influências dos outros, nunca deixando naturalmente de procurar simultaneamente influenciar. […] O Comportamento humano é, em simultâneo, uma relação e uma experiência.”
3
Recentemente alguém me perguntou: “Mas afinal o que é que te faz andar nessa busca constante de Conhecimentos?”, ao que respondi: “Sentido de responsabilidade!” Insistiram: “Responsabilidade perante quem e o quê?” Respondi: “Responsabilidade perante os compromissos que assumo.” E esclareci: “Quando jovem, assumi o compromisso com o projeto de ser treinador”; quando treinador, assumi o compromisso com o propósito de servir, mais do que servir-me dos jogadores; como empresário, assumi o compromisso de salvaguardar os interesses daqueles que colaboram com a empresa que criei”.
Perante esta minha resposta, quem me questionou insistiu: “Mas por que razão tanta insistência na partilha de conhecimentos?” Retorqui: “Mais uma vez, pelo sentido de responsabilidade de ser útil através da metodologia de treino comportamental que criamos e designamos como “Pensar e Intervir como um Treinador.” Continuei: “Pensar e Intervir como um Treinador tem-me comprometido cada vez mais com o projeto de clarificação do que significa “Viver a Vida”, do que significa fazer parte de uma Equipa Inteligente, do que significa afinal ser uma Pessoa.”
4
Acrescentei: “No fundo, quanto maior for a nossa empatia e a nossa capacidade pessoal de ouvir para que os outros falem e falar para que os outros ouçam. Quanto maior for a nossa capacidade de estar ao serviço de objetivos comuns e de demonstrarmos verdadeira preocupação com os Outros. Prioritariamente vem o meu comportamento ao “Viver a Vida”. Comportamento esse onde finalmente o que me distingue não são os Conhecimentos que eu tenho, mas o modo como me comporto relativamente aos Outros com quem me relaciono.”
Enfim: “Que importa eu ser um especialista tecnicamente muito bem preparado se como Pessoa não mereço o respeito e a consideração dos que me rodeiam?”
Não tem sido fácil demonstrar que, no âmbito comportamental, o fundamental não é a comunicação, a motivação, a liderança, a gestão de conflitos, o teambuilding, etc. Estas são as «partes»! O fundamental é, isso sim, ajudar aqueles com quem trabalhamos a serem Pessoas íntegras, capazes de criarem relações de confiança mútua. Também de interagirem de forma emocionalmente convincente com aqueles com quem convivem, preocupadas com os Outros por vezes mais do que consigo próprias e de se disponibilizarem ao serviço de objetivos comuns.
5
Uma última nota sobre este «início e época», a partir do que hoje, de manhã cedo, continuava a tentar refletir a partir do livro Uma Vida com Sentido, de autoria de Miroslav Volf, Matthew Croasmann e Ryan McAnnally-Linz, cuja tradução portuguesa foi editada em 2024 pela Planeta Editora, mais concretamente na página 175, em que me deparei com aquela que é uma das grandes dificuldades para o futuro.
Cito: “Estar errado sem se perceber é exatamente a mesma coisa que estar certo. Esse é o problema. O mesmo acontece com o fato de estarmos errados. Se não nos apercebermos disso, fazer a coisa errada parece o mesmo que fazer qualquer outra coisa. Estamos apenas a fazer o que fazemos, a viver como vivemos. […] Há aqui um perigo sério. Podemos ter bons valores- talvez até os valores certos- e estar a viver sem pensar em desfasamento ou mesmo em oposição direta com aquilo que consideramos ser digno da nossa humanidade. E quando avançamos nessa direção, os incentivos para permanecermos ignorantes começam a acumular-se. […] Afinal de contas não sentimos que estamos a falhar o alvo. Sentimos que estamos a fazer o que está certo. […] Sem o sabermos, estamos a enganar-nos a nós próprios e os ciclos de autoengano são fáceis de iniciar, mas incrivelmente difíceis de interromper. É preciso que alguma coisa nos abale para nos dar uma pista.”
Estejamos então atentos! E que o período setembro26 / agosto27 seja correspondente ao lema: «Quem não melhora, piora»!
Jorge Araújo
Licenciado em Educação Física, pelo então Instituto Nacional de Educação Física (INEF), e doutorado em Filosofia, em 2022, pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.
Foi Presidente da Team Work Consultores entre 1997 e 2025, com funções institucionais e de desenvolvimento e implementação da respetiva metodologia a nível nacional e internacional, mantendo-se como sócio-fundador.
Foi treinador profissional de basquetebol durante 38 anos, com destaque para 17 anos no F. C. Porto. Várias vezes campeão na Liga Profissional e vencedor de outras provas nacionais, foi selecionador nacional de basquetebol em todos os escalões masculinos.
Conduz seminários para gestores de topo e quadros médios e superiores de empresas, possuindo especializações nas áreas da Gestão da Mudança, Executive Coaching e Coaching Winning Teams.
Colaborador ao longo dos anos em pós-graduações das Universidades Católica, Lusófona, Lusíada e Porto Business School, é autor de cerca de três dezenas de livros.