A Inteligência Artificial (IA) já não é um tema “do futuro” no treino desportivo. Está a entrar, de forma silenciosa e rápida, no quotidiano de muitos treinadores: recomenda cargas, sugere exercícios, sinaliza riscos de lesão, identifica padrões em vídeo, escreve relatórios, automatiza tarefas, entre muitas outras coisas. Para uns, é um novo “membro” da equipa técnica. Para outros, é mais uma moda tecnológica com linguagem sedutora e resultados discutíveis. A verdade, como quase sempre, está no meio — e merece uma abordagem séria, prática e ética.
A primeira pergunta não deve ser “o que é que a IA consegue fazer?”, mas sim “que problemas reais queremos resolver no nosso contexto – treino desportivo?”. O treino é, entre muitas outras coisas, um processo onde a relação treinador-atleta, a todos os níveis, continua a ser a preocupação central. A IA pode acelerar o acesso à informação e ajudar a reduzir ruído (por exemplo, ao organizar dados dispersos, detetar tendências e apoiar a comunicação), mas não substitui o olhar crítico, a experiência do treinador nem o conhecimento do atleta sobre si próprio. Quando a tecnologia se transforma em autoridade, e não em ferramenta, o risco aumenta.
Há, ainda assim, ganhos evidentes quando a IA é bem enquadrada. A gestão da carga e da recuperação, por exemplo, pode beneficiar de modelos que integrem múltiplas fontes (carga externa, interna, sono, stress, histórico de lesões, etc.) e indiciam e antecipem “sinais” antes de se tornarem problemas. A análise do treino e da competição pode ser mais consistente e rápida com apoio automatizado de vídeo, etiquetagem e métricas contextuais. E, num plano mais simples, mas não menos valioso, a IA pode libertar tempo: menos horas em tarefas repetitivas, mais horas naquilo que realmente é importante — planear, observar, conversar, ensinar e ajustar.
Mas é aqui que se impõe a prudência: a IA é tão boa quanto os dados, as perguntas e as decisões humanas que a rodeiam. Modelos treinados em populações diferentes, com recolhas incompletas, enviesadas ou mal padronizadas, podem produzir recomendações enganadoras com um ar de precisão. Há também um perigo de “fetichismo do número”: medir mais não é compreender melhor. Se a equipa técnica não dominar os princípios — o que medir, porquê, como interpretar, quais as margens de erro — a IA pode amplificar más decisões em vez de as corrigir.
Outro eixo incontornável é a ética e a proteção do praticante. Dados de saúde, desempenho e comportamento são sensíveis. Quem é o dono dos dados? Quem tem acesso? Por quanto tempo? Para que finalidades? Um ambiente de rendimento não pode transformar-se num ambiente de vigilância. A confiança é um ativo competitivo e humano. Se a IA entrar pela porta da desconfiança, sai pela janela do rendimento. Transparência, consentimento informado, minimização de dados e regras claras de utilização não são burocracia — são marcas de qualidade.
No fundo, a discussão sobre IA no treino desportivo é uma discussão sobre identidade profissional. O que distingue um bom treinador não é ter mais tecnologia, mas fazer melhores perguntas, interpretar melhor o contexto e comunicar melhor com pessoas reais. A IA pode ser uma vantagem competitiva quando está ao serviço de um modelo de treino coerente, de uma metodologia clara e de uma cultura que valoriza a aprendizagem. Sem isso, será apenas algo descontextualizado e sem rigor para utilização por parte do treinador.
Nesta edição abordamos a IA através de diferentes artigos e visões. Para que o leitor, principalmente o treinador, possam refletir sobre as vantagens da sua utilização e em que situações e contextos.
[Pode aceder à página da revista aqui e aceder ao #02 aqui]
Por: Pedro Sequeira
Foto: C. Saraiva